Pular para o conteúdo

Flávio Bolsonaro mentiu, Nunes Marques mandou calar, mas o próprio TSE não encontrou fake news no “Exército de Lula”

Relatório técnico desmonta a acusação de notícias falsas apresentada pela campanha bolsonarista e lança dúvidas sobre os fundamentos da decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral que determinou a suspensão de um canal com mais de 3 milhões de inscritos.

Uma acusação grave, uma decisão judicial controversa e um relatório técnico que não encontrou as notícias falsas denunciadas. Esse é o cenário de mais um episódio explosivo da disputa presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), às vésperas do segundo turno, marcado para 25 de outubro.

A campanha de Flávio Bolsonaro acusou o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, coordenado pelo deputado eleito André Janones (Rede-MG), de espalhar mentiras contra o candidato bolsonarista. A denúncia serviu de fundamento para uma disputa judicial que resultou na suspensão do canal por determinação do presidente do TSE, ministro Nunes Marques.

O problema para Flávio Bolsonaro é que a própria equipe técnica do Tribunal Superior Eleitoral não encontrou publicações apontadas por Bolsonaro.

O relatório, produzido por determinação do próprio Nunes Marques, analisou mensagens publicadas entre os dias 2 e 11 de outubro e não identificou novas ocorrências das alegadas fake new.

O resultado enfraquece a narrativa apresentada pela campanha bolsonarista e coloca sob questionamento a proporcionalidade da medida adotada pelo presidente da Corte Eleitoral.

Como justificar a suspensão de um canal com mais de 3 milhões de participantes quando a análise técnica não confirma a reprodução das falsidades denunciadas no período examinado?

Embora o relatório tenha alertado para riscos relacionados ao alcance das mensagens, à mobilização coordenada de seguidores e à linguagem polarizadora, risco potencial não é a mesma coisa que comprovação de desinformação.

A diferença é fundamental, sobretudo quando uma decisão judicial interfere diretamente na comunicação política de milhões de eleitores em plena reta final de uma eleição presidencial.

A controvérsia ganhou novo capítulo no domingo (11), quando o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, suspendeu a determinação de Nunes Marques e autorizou o restabelecimento do canal.

Cueva manteve a proibição de divulgar conteúdos falsos já examinados pelo tribunal e advertiu que o descumprimento poderá provocar nova suspensão. A decisão é preliminar e ainda deverá ser analisada pelo plenário do TSE.

O presidente Lula reagiu duramente à atuação de Nunes Marques, classificando a suspensão como absurda e questionando os critérios utilizados pela Justiça Eleitoral.

“Há muitos dias eu estou percebendo que há muitas decisões tendenciosas contra a nossa candidatura”, declarou o presidente.

O episódio deixa duas questões politicamente incômodas: a campanha de Flávio Bolsonaro conseguiu comprovar a acusação que apresentou? E a decisão de Nunes Marques respeitou os limites necessários para proteger a liberdade de manifestação política?

O relatório não permite concluir que todas as mensagens do canal eram verdadeiras, tampouco demonstra que Flávio Bolsonaro tenha mentido deliberadamente. Mas revela que a verificação técnica não confirmou novas publicações com as falsidades denunciadas, dentro dos limites da análise realizada.

Num momento em que a Justiça Eleitoral deveria oferecer segurança, equilíbrio e transparência, decisões dessa natureza exigem fundamentação especialmente rigorosa.

Combater notícias falsas é obrigação da Justiça. Transformar suspeitas não comprovadas em justificativa para restringir a comunicação política é um risco que a própria democracia não pode ignorar.

R

REDAÇÃO

Autor da publicação.

Eleições 2026 — Apuração em tempo realAguardando dados oficiais do TSE
0,00%seções
Ver apuração