Tenho reparado que as pessoas hoje em dia andam com um pavor danado do silêncio. Se a tela do celular passa três minutos sem apitar, a sensação não é de paz; é de abandono. Há quem ache que o mundo acabou só porque ninguém respondeu à sua última frase.
Criou-se entre nós um jeito novo e curioso de não existir.
Antigamente, a coisa era bem mais simples: para alguém ser dado como ausente, precisava daquele ritual antigo — o caixão na sala, o copo de Nescau, a bolacha água e sal de madrugada e o choro contido dos parentes. Era a morte de fato, solene e definitiva.
Hoje, os costumes se modernizaram. Descobrimos que é possível apagar um vivente sem precisar gastar uma vela. Basta que ele discorde do tom da música que a multidão resolveu cantar.
Tenho visto essa mania recente de “seguir”. Seguir é um verbo perigoso e preguiçoso. Quem segue alguém, por definição, vem atrás. E quem vem atrás não escolhe o caminho; apenas pisa onde o outro já pisou.
O problema é que a essência de ter opinião é justamente o tropeço, o desvio, a teimosia de querer olhar para o outro lado da rua. Mas na rua digital não há dois lados. Há a procissão dos obedientes e há o abismo do cancelamento.
O novo ditador não usa farda nem marcha na praça. Ele fala macio, usa filtro de luz e nos convida a ser seu espelho. E nós, tomados por essa fome narcísica de sermos olhados a qualquer custo, entregamos o pensamento em troca de um punhado de curtidas. Deixamos de pensar para apenas reagir. Trocamos o mistério das ideias por cinco segundos de uma dopamina barata, que não informa, não constrói e não tolera o menor sopro de contradição.
Vejo isso acontecer bem de perto com o meu amigo Leonardo.
Leonardo é uma boa alma, mas vive prisioneiro dessa arquitetura de espelhos. Outro dia, ele havia acabado de publicar uma foto acompanhada de um pensamento sincero. Assim que apertou o botão de enviar, entrou num transe doloroso. Ficou ali, de testa franzida, acompanhando com os olhos aflitos a cada volta do ponteiro. A cada trinta segundos, passava o dedo na tela do celular para atualizar a página.
Se a notificação não vinha, o rosto do Leonardo afundava numa tristeza de menino esquecido no pátio da escola.
Há quem diga que essa busca desesperada por aplausos digitais é coisa de quem quer ganhar dinheiro na internet. Bobagem. Isso já passou da conta do bolso há muito tempo. Mesmo para quem monetiza, não é pelo dinheiro; é pelo desejo visceral de se sentir importante, de ter um trabalho que o projete, de não ser invisível. E para os que não ganham um centavo — encolhidos na penumbra de seus quartos —, a tela é a única fresta para o mundo. A curtida não é moeda; é um pedido de socorro no escuro. É o atestado de que alguém, em algum lugar, nos enxergou.
A tragédia é que, para garantir essa migalha de importância, a gente aceita calar a própria voz. Entrega-se a opinião em troca de pertencimento.
Até que a vida de verdade — essa que não precisa de algoritmo para tocar a gente — bate à porta com a força inevitável de um baque.
Nestes últimos dias, o Acre inteiro acompanhou, com o peito apertado, a despedida do jornalista Ayres Rocha. Não precisou de notificação para que as pessoas sentissem a dor da partida. Foi uma comoção genuína, que tocou quem estava na capital e no interior.
Eu não o conhecia pessoalmente. Devo ter cruzado com ele uma vez ou outra nos corredores do supermercado aqui em Rio Branco, sem alarde. Assim como eu, milhares de acreanos nunca tomaram um café na mesa dele. Mas a gente o conhecia de um jeito antigo e bonito: vendo o seu rosto e ouvindo a sua voz entrar na nossa sala todos os dias pelo telejornal.
Ayres era um homem nascido no século XX, feito desse material humano que parece em extinção. Ele não pertencia a essa prateleira de gesso das redes sociais, onde todo mundo tem medo de errar a vírgula e ser linchado pelo grupo.
Certa vez, num prêmio de comunicação, ele simplesmente começou a dançar no palco na frente de todos — sem pose, sem ensaio para o Instagram, com a alegria desajeitada e pura de quem está ocupado demais existindo para se preocupar com aprovações virtuais.
Ayres não era um clique. Não era um filtro. Não devia nada ao tribunal dos likes.
Ele sabia que o importa de verdade é o sol batendo no rosto. É a chuva quando cai na terra quente e faz subir aquele cheiro de areia molhada. É a dança solta na sala. É estar vivo no mundo, e não sequestrado pelo espelho dos outros.
E foi esse mesmo homem que, certa noite, sentado na bancada do Jornal Nacional, olhou para a câmera e disse, sem pedir licença a ninguém: “Isso aqui também provou que meu Acre existe, existe sim.”
Que lição bonita para o nosso tempo de fantasmas.
Hoje, a gente passa o dia pedindo autorização ao algoritmo para existir, morrendo de pavor de ser cancelado por ter uma opinião própria. Mas o cancelamento do grupo é uma morte de mentira, inventada por quem só existe na tela. A verdadeira morte — essa sim, trágica — é passar pela vida como um eco, sem nunca ter sentido o cheiro da terra, sem nunca ter dançado fora do ritmo e sem ter tido a audácia de fincar os pés no chão para dizer ao mundo quem a gente é.
O homem do século XX descansou. Mas a sua voz nos lembra do essencial: quem é de verdade não se apaga com um clique.
Emylson Farias
Delegado de Polícia

