A ascensão de Lula na pesquisa Quaest provocou inquietação entre apoiadores de Flávio Bolsonaro, desde o início da manhã desta quarta-feira. Os ataques gratuitos a quem pensa diferente, críticas aos institutos e desconfiança sobre as urnas ressurgem, naturalmente, quando os números deixam de favorecer a direita.
O prenúncio de uma nova onda de negacionismo eleitoral começa a ganhar contornos preocupantes nas redes sociais do Acre, estado onde o bolsonarismo mantém uma expressiva base eleitoral e onde setores mais radicais da direita parecem encontrar dificuldades para conviver com qualquer perspectiva de derrota política.
Bastou a divulgação da pesquisa Quaest desta quarta-feira (21), sinalizando uma recuperação do presidente Lula na disputa contra Flávio Bolsonaro e um crescimento da rejeição ao candidato do PL, para que manifestações de inconformismo voltassem a alimentar discussões políticas em grupos de WhatsApp e Facebook.
O fenômeno, caso se confirme como tendência, não chega a surpreender. Parte da militância bolsonarista acreana construiu sua atuação digital sobre uma combinação de intolerância, agressividade e rejeição sistemática a tudo que contraria suas convicções ideológicas. Há, naturalmente, eleitores conservadores que defendem suas posições com civilidade e respeito democrático. O problema está na parcela radicalizada que transforma divergências políticas em ataques pessoais e manifestações preconceituosas, inclusive contra pessoas negras, homossexuais e outros segmentos sociais.
A contradição é particularmente reveladora. Quando Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, o resultado eleitoral foi celebrado por seus apoiadores. Agora, diante da possibilidade de uma virada do presidente, ressurgem questionamentos sobre a confiabilidade das pesquisas e suspeitas lançadas contra o sistema eleitoral brasileiro.
É a velha lógica da democracia seletiva: quando o resultado favorece o próprio candidato, as instituições funcionam; quando ameaça seus interesses, passam a ser tratadas como suspeitas.
É preciso distinguir a crítica legítima aos institutos de pesquisa — que podem errar e devem prestar contas de suas metodologias — da tentativa de desacreditar antecipadamente qualquer resultado desfavorável. Pesquisas são retratos estatísticos de um momento, não sentenças definitivas das urnas. Tampouco a eventual vitória de Lula representaria, por si só, prova de irregularidade eleitoral.
O que inquieta não é o direito de discordar, mas a possibilidade de que a frustração política seja novamente convertida em hostilidade, desinformação e ataques à legitimidade do voto popular.
E uma pergunta começa a ganhar força neste ambiente de crescente tensão: o que acontecerá com os setores mais extremados do bolsonarismo acreano se, ao final da apuração de domingo (25), a direita sofrer mais uma derrota consecutiva na disputa pelo comando político do Brasil?
A resposta deverá revelar não apenas a capacidade de seus líderes de reconhecer o resultado das urnas, mas, sobretudo, o grau de compromisso de seus seguidores com a democracia.
Porque perder uma eleição é parte natural do jogo democrático. O que não pode ser normalizado é transformar cada derrota em pretexto para atacar a democracia, perseguir adversários ou disseminar ódio.
Dados confirmados da Quaest: Flávio aparece com 45% e Lula com 44%, em empate técnico — portanto, ainda não há virada numérica, muito embora a vantagem pró-Flávio fosse de 8 pontos há duas semanas. A rejeição de Lula caiu de 53% para 47%, enquanto a de Flávio recuou de 54% para 52%.

