Quando o presidente Donald Trump sinaliza que pode não aceitar o resultado de uma eleição, vale a pena levá-lo a sério.
A esta altura, em sua quinta eleição nacional como líder do Partido Republicano, Trump tem um modus operandi estabelecido. Ele passa meses alimentando dúvidas sobre o sistema de votação e a integridade dos funcionários eleitorais, ao mesmo tempo em que sugere que os democratas podem fazer trapaças.
Em seguida, ele transforma o vórtice de desconfiança que criou em arma e insinua, antes da contagem dos votos, que a eleição pode não ser justa.
A uma semana do Dia da Eleição, parece mais com o Dia da Marmota.
Trump foi questionado na terça-feira (27) se aceitará os resultados das eleições de meio de mandato, que podem significar uma noite difícil para o Partido Republicano, “aconteça o que acontecer”.
Essa dificilmente seria uma pergunta feita a qualquer outro presidente moderno. Mas a resposta de Trump veio acompanhada de uma ressalva tornada ainda mais ominosa por sua conduta passada: “Vou aceitar, se forem eleições honestas, sim.”
Há muito a se preocupar aqui, além da ambiguidade de sua resposta. Isso porque Trump efetivamente se apresenta como o único árbitro da probidade de uma eleição. Quando perdeu a eleição presidencial em 2020, ele alegou falsamente fraude, apesar de múltiplos funcionários republicanos, tribunais e até mesmo seu próprio Departamento de Justiça terem comprovado que não houve tais irregularidades.
A mais recente hesitação de Trump em relação a uma eleição ocorreu em um contexto ameaçador. Ele passou grande parte deste ano tentando distorcer as eleições de meio de mandato em favor do Partido Republicano, pressionando por um esforço de gerrymandering no Texas e em outros estados, e exigindo sem sucesso que o Congresso aprovasse uma lei de registro de eleitores e identificação que, segundo críticos, privaria milhões de cidadãos do direito ao voto.
E recentemente ele ordenou ao Departamento de Justiça que entrasse com uma ação para bloquear a certificação da eleição para o Senado dos EUA no Alasca, caso o senador republicano Dan Sullivan perca, mesmo que a Constituição não conceda ao presidente nenhum poder para administrar eleições.
Trump insiste que um candidato separado chamado Daniel J. Sullivan poderia confundir os eleitores e que sua candidatura é uma conspiração democrata. A Suprema Corte do Alasca decidiu que o segundo Sullivan pode legalmente concorrer na eleição.
O New York Times noticiou na quarta-feira que democratas afiliados à campanha da candidata do partido ao Senado, Mary Peltola, recrutaram o outro Sullivan, um professor aposentado, para concorrer. Sua campanha nega qualquer envolvimento. Peltola pediu a um juiz que derrubasse o processo do DOJ antes do dia da eleição.
Em outro golpe preventivo, o DOJ ordenou na sexta-feira que a Califórnia identificasse suspeitos de não cidadãos nas listas de eleitores e separasse suas cédulas de voto por correspondência — alertando que autoridades que conscientemente contassem votos de não cidadãos poderiam enfrentar responsabilidade criminal.
Um tribunal federal de apelações bloqueou essa manobra do DOJ.
Mas as manobras do governo levantam a possibilidade de um confronto pós-eleitoral. E, em contraste com 2020, quando o então procurador-geral Bill Barr rejeitou as acusações de Trump sobre fraude eleitoral generalizada, o departamento parece menos propenso a contradizê-lo desta vez.
Por que as declarações de Trump são tão preocupantes
As cicatrizes de um dos dias mais sombrios da história americana moderna — 6 de janeiro de 2021 — fazem com que as mais recentes manobras eleitorais de Trump sejam particularmente carregadas de significado.
Meses antes de apoiadores do MAGA invadirem o Capitólio dos EUA, alguns espancando policiais, Trump já vinha minando a confiança deles na eleição de 2020 com uma linguagem notavelmente semelhante à que usou na terça-feira.
“Espero que seja uma eleição justa. Se for uma eleição justa… estou 100% a bordo”, disse Trump em seu primeiro debate presidencial contra Joe Biden em setembro de 2020. “Mas se eu vir dezenas de milhares de cédulas sendo manipuladas, não posso concordar com isso.”
Quatro anos depois, quando Trump foi questionado por Dana Bash em um debate presidencial da CNN sobre se aceitaria o resultado da eleição independentemente de quem vencesse, ele respondeu: “Se for uma eleição justa, legal e boa — absolutamente.”
Trump não contestou os resultados em 2024. O motivo é óbvio: ele venceu. Quatro anos antes, ele havia perdido.
O negacionismo eleitoral serial de Trump, na ausência de qualquer fraude eleitoral generalizada nos EUA, levanta a questão de por que ele, sozinho entre os presidentes, não consegue aceitar a realidade democrática de que às vezes se perde eleições.
Uma resposta é que Trump deu amplas evidências de que se importa mais com o poder do que com o princípio de que os eleitores têm o direito de escolher seus líderes.
Outra é que Trump construiu uma marca pessoal como um dos maiores vencedores da vida. Essa frágil aparência é incompatível com qualquer percepção de ser um perdedor — uma das razões pelas quais ele ainda não consegue admitir que perdeu para Biden em 2020.
Mas o que ele poderia tentar fazer se as eleições correrem mal para os republicanos desta vez?
A intervenção do DOJ no Alasca sugere uma campanha jurídica pós-eleitoral caso Peltola some um dos quatro ganhos líquidos de que os democratas precisam para obter maioria no Senado. Movimentos semelhantes em outros estados não podem ser descartados.
Funcionários eleitos republicanos e procuradores-gerais em estados-chave podem esperar pressão implacável de Trump, se a sua fracassada tentativa de forçar membros do GOP na Geórgia a “encontrar” votos nas eleições de 2020 servir de referência. Agora não há um equivalente a Barr para desmentir possíveis alegações de fraude. O atual Procurador-Geral Todd Blanche disse no programa “Meet the Press”, da NBC, em agosto, que não poderia garantir que o departamento agiria sempre de forma independente de Trump.
No domingo, Blanche afirmou no “State of the Union”, da CNN, que o governo não estava fazendo nada “impróprio” no Alasca e simplesmente queria garantir que a pessoa legítima vencesse, dizendo: “O presidente Trump não está tentando assumir o controle de uma eleição estadual de nenhuma forma, jeito ou maneira.”
Mas ele rejeitou veementemente a ideia de que a tentativa do presidente de reverter as eleições de 2020 justificasse qualquer preocupação com suas declarações maculando as eleições de meio de mandato de 2026: “Não é uma conversa sobre 6 de janeiro.”
Em 2020, as salvaguardas legais e constitucionais dos Estados Unidos resistiram. Mas Trump agora tem menos restrições impostas por assessores dispostos a moderar seus instintos mais antidemocráticos.
Ainda assim, democratas e autoridades estaduais de ambos os partidos que supervisionam as eleições tiveram meses para se preparar para possíveis ameaças de funcionários da Casa Branca e operadores locais do MAGA.
Se os democratas vencerem com folga, Trump pode ter menos margem para interferir. Se o resultado for mais apertado, é possível que batalhas jurídicas prolongadas possam paralisar o destino do Senado por semanas. Hakeem Jeffries, provável presidente da Câmara caso os democratas conquistem a maioria, disse na semana passada ao Manu Raju, da CNN, que presumia que os republicanos iriam “tentar criar qualquer esquema diabólico para impedir que o dia 3 de novembro seja uma eleição livre e justa”.
E não é sem precedentes que a posse de um novo senador seja contestada, de acordo com o advogado e especialista eleitoral Ben Ginsberg. “Isso acontece muito raramente. Quando ocorre, rasga o tecido da instituição do Senado”, disse Ginsberg na cobertura especial eleitoral da CNN no domingo.
Trump poderia ter fortes incentivos para contestar resultados eleitorais desfavoráveis, já que os democratas já planejam uma campanha implacável de investigações sobre a Casa Branca, o Gabinete e as transações financeiras da família Trump.
Mas um presidente em fim de mandato com índice de aprovação na casa dos 30 que acabou de perder uma grande eleição nacional teria força política suficiente para conseguir isso?
E a postura de campanha egocêntrica de Trump indicou pouca preocupação com os republicanos em situação vulnerável. Ele pode simplesmente se importar menos quando seu nome não está na cédula.
O presidente pareceu, na terça-feira, estar ao menos contemplando um período de amarga coabitação com um Congresso democrata. “Olha, tenho um veto forte. Espero que não seja o caso, mas se for, isso já aconteceu antes com muitos presidentes”, disse ele.
Mas Trump frequentemente cumpre suas ameaças. E suas mais recentes ressalvas eleitorais mostram que ele ainda acredita que uma eleição que perde deve ser injusta.
Portanto, é uma boa ideia levá-lo ao pé da letra.
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por yasmincaetano.

