O SERINGAL

Emylson Farias escreve: O dia de decidir o amanhã

​Hoje é sábado. O circo da propaganda finalmente recolheu seus tambores, a poeira baixou e as ruas amanhecem numa espécie de trégua. Depois de semanas de gritaria, santinhos ao vento e promessas apressadas, o silêncio do sábado nos devolve o direito mais simples de todos: o de pensar.

​Amanhã, quando o relógio apontar seis horas e a luz mansa do amanhecer cobrir o céu de Assis Brasil a Cruzeiro do Sul, o cheiro do café quente vai chegar à mesa. A casa estará quieta. O homem vai vestir uma roupa simples, calçar o sapato de andar, colocar o documento no bolso e sair para cumprir um ritual íntimo. Podia ser mais um domingo qualquer de descansar os pés, molhar as plantas no quintal ou olhar o tempo passar. Mas não será. Há uma gravidade leve no ar de amanhã.

​Lembro-me da avó de um grande amigo, que morava na área rural, longe de tudo. Em domingo de eleição, mesmo quando a idade já a isentava de qualquer obrigação, o sol não a pegava na cama. Ela tomava seu banho, vestia sua melhor roupa, se maquiava, dava aquele retoque na boca com o batom, ajeitava o colar no pescoço e ia para a cidade. Ninguém precisava mandar. Aquele gesto não era sobre leis ou governantes; era a sua forma bonita e silenciosa de dizer que ainda se importava com o mundo.

​É no contraste com essa delicadeza que percecemos o quanto nos esquecemos do essencial. Afinal, passamos dois anos inteiros anestesiados pelo hábito de fazer tudo sempre igual, engolidos pela rotina e pelo cansaço. A verdadeira política — aquela que deveria morar no banco da praça, no boteco da esquina e na conversa sincera de calçada — costuma ser sufocada pela pressa do mundo. No automatismo dos dias, a gente quase se acostuma com a ideia de que a vida é um teatro absurdo, sem pé nem cabeça, com a impressão de que tudo continua igual.

​Essa mesma rotina apressada acabou nos isolando. Vivemos sob o mesmo teto, habitamos o mesmo cantinho de chão no sul desta América, compartilhamos as mesmas dores, mas raramente nos olhamos nos olhos. Faltam o abraço, o acolhimento e o exercício diário da escuta. A gente se esquece de que o avanço civilizatório nasce exatamente da capacidade de conviver, de discordar sem odiar e de cuidar da nossa casa comum.

​Por isso o domingo de eleição tem o dom raro de nos despertar da apatia. No momento em que a gente puser o pé na calçada, o mundo recuperará a sua lógica. Caminhar até a seção eleitoral é uma forma serena de renovar a esperança. Na fila da escola, o rebanho é um só. Ali não existe o terno do poderoso nem a mão calejada do trabalhador; o sol da manhã baterá com o mesmo calor sobre todos os ombros. Diante daquela tela iluminada, as diferenças desmoronam e todo mundo passa a ter rigorosamente a mesma altura.

​O gesto de apertar o botão não é a busca por um salvador nem a esperança de um milagre imediato. É algo muito mais humilde e bonito: é como quem acende uma vela no escuro ou planta uma semente na terra. Votar é um ato de afeto coletivo. É o instante em que a gente deixa de olhar para o próprio umbigo para pensar no vizinho, no menino da rua e na dor de quem nada tem.

​Mas ao voltar para casa com o dever cumprido, o futuro nos espera no portão e faz a pergunta inevitável: e depois? O que faremos nos próximos quatro, oito, doze anos? Vamos simplesmente guardar o título na gaveta, fechar a porta e nos recolher de volta ao nosso casulo anestesiado? Se a esperança morrer na noite do domingo, nada terá mudado. O amanhã cobra que a gente continue olhando para quem está do lado, mantendo a porta aberta para o abraço e para a acolhida. Não é um gesto fácil, mas é indispensável.

​Afinal, os tempos andam tão difíceis e carregados de agressividade que o medo muitas vezes tenta nos empurrar de volta para o silêncio. Hoje, se Jesus resolvesse caminhar por nossas ruas ensinando o amor escancarado e a acolhida aos esquecidos, daria receio de que acabasse atacado pelo ódio de alguém ou levasse um tiro de quem desaprendeu a respeitar a existência do outro.

​É por isso que a salvação não virá de cima, nem do estalo de um decreto. A salvação das pessoas nasce na mudança do olhar, na empatia que acolhe, na fraternidade viva que recusa o egoísmo e no cuidado sincero de uns para com os outros.

​Votar é pedir licença para que a humanidade caminhe sem medo. A esperança não é uma garantia de vitória, mas o combustível simples que nos manterá de pé — e plenamente irmãos — para continuar tentando na segunda-feira.

​Emylson Farias
Delegado de polícia

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