O SERINGAL

Emylson Farias escreve: O intruso na garagem

A noite ia tranquila na sala de casa. Um copo d’água sobre a mesa, o silêncio bom de fim de dia, o cansaço acomodado na poltrona.

​Na tela da televisão, a imagem de um debate político em São Paulo parecia apenas mais do mesmo — gravatas bem alinhadas, gestos estudados e aquele tom empostado de quem fala para a posteridade. Mas, de repente, o som da TV rompeu a calma da casa como um vidro que se quebra na cozinha.

​Do estúdio paulista, o candidato disparou contra duas candidatas ao Senado — uma do Acre, outra do Mato Grosso do Sul — declarando, com o peito estufado de orgulho, que elas vinham de terras “muito piores” e que São Paulo só não estava melhor porque “tem que sustentar os outros estados do Brasil”.

​Ali estava ele: um legítimo lorde europeu perdido nos trópicos. Uma espécie de Barão de Mauá de gabinete, convencido de que carrega nos ombros o peso do progresso de um país de ignorantes. Na cabeça dele, o sol nasce na Praça da Sé e o resto do mapa é apenas paisagem sombria, habitada por gente que ele julga não saber votar nem para síndico de prédio.

​O homem na tela apenas dava voz ao que sempre guardou no peito: a soberba cega de uma superioridade que nunca existiu.

​O nobre orador parece esquecer — ou talvez nunca tenha aprendido — uma matemática primária: a lâmpada que ilumina o estúdio onde ele esbraveja, o sabão que lava o seu colarinho e a própria marca da sua gravata faturam e pagam impostos em São Paulo, mas são sustentados pelo suor de quem compra, consome e trabalha no Acre, no Centro-Oeste e em cada canto deste país. Não há caridade na riqueza paulista; há um mercado nacional que lhe dá força e sustentação todos os dias.

​Esquece também que a própria história não é obra de um homem só: do café dos barões às grandes indústrias, a pujança paulista sempre contou com os braços, a proteção e os recursos do Estado nacional. Não se trata de culpar o povo paulista — gente simples e trabalhadora que também carrega a vida no lombo —, mas de expor o cinismo de quem usa o topo dessa construção para ferir os outros. Afinal, o preconceito nem sempre precisa de malícia para magoar; às vezes, basta a desatenção inconsciente de quem nunca precisou olhar no espelho do próprio privilégio.

​Mas a fala ecoou na estante e, num estalo, a televisão virou espelho do tempo. Fui arremessado décadas para trás, direto para o estacionamento do prédio onde morei em Ribeirão Preto nos meus tempos de estudante.

​Lembrei de uma confusão banal por conta de uma vaga na garagem e da vizinha — uma senhora comum, de família, daquelas que frequentam a igreja aos domingos — me encarando com o rosto contorcido pela raiva. O carro nem era meu; um amigo havia pedido para usar a vaga do apartamento que eu alugava. Tentei resolver na paciência do diálogo:

​— Não, senhora, veja bem, eu estou colocando o carro aqui porque a garagem é minha, eu pago o aluguel deste apartamento.

​Ela me olhou de cima a baixo, ajustou a postura e disparou a frase que guardava no fundo da alma:

​— Você é um bastardo! Você não tem direito a nada aqui.

​Aquela palavra não vinha do dicionário do pai ausente. Vinha da negação da pátria. Para ela, o jovem vindo do Norte pisando em solo paulista era o intruso indesejado, o sem-terra que não tinha o direito de ocupar nem o espaço de uma garagem pela qual pagava.

​Eu era jovem demais. Na verdade, nem soube o que responder e tampouco sabia como me defender. O preconceito opera assim: ele fere primeiro no corpo e na alma, e na hora da pancada a gente só sente a queimadura. Não há repertório no choque. É preciso tempo para compreender a gramática, a história e a estrutura cultural por trás do golpe até que se possa transformar a ferida em resposta.

​A grande vitória da dominação é justamente essa: fazer a vítima assimilar a submissão e se tornar cúmplice involuntária da própria dor. O ódio paralisa porque atinge o ponto mais sensível da nossa identidade: faz o agredido duvidar de si mesmo, perguntando em silêncio se não é menor de fato, se a outra não tem razão, se estar ali estudando não é uma audácia de quem não pertence àquele mundo.

​O tempo passou, a juventude ficou lá no estacionamento daquele prédio, e a voz vinda da televisão me puxou bruscamente de volta ao presente. Só então a perplexidade inicial e a ironia do “lorde” precisaram dar lugar à gravidade. O que eu assistia na tela não era um tropeço isolado de debate; era o velho preconceito neocolonial reeditado com gravata e microfone.

​É a velha ilusão dos que nascem em cima do pedestal e acreditam que inventaram o céu. Essa soberba aristocrática precisa inventar um país de incapazes para continuar se sentindo dona do mundo. Reduzem a nossa inteligência ao tamanho de uma ficha de condomínio porque não suportam ver que a vida, a cultura e a força deste país correm soltas, inteiras e soberanas para muito além do alcance dos seus muros.

​Por isso, ouvir um absurdo desse não pode provocar apenas um reflexo de raiva infantil. É preciso sentir a indignação da inteligência, o repúdio civilizatório de quem sabe que o Brasil não tem donos nem tutor.

​A dor de ontem não é mais paralisia: transformou-se em indignação altiva e na consciência de quem amadureceu. A resposta que faltou naquele estacionamento do passado se dá, agora, no entendimento soberano de que a nossa humanidade é plena, inteira e não cabe no julgamento de quem se julga dono da terra.

​Mudei de canal. Olhei pela janela a noite serena lá fora.

​No fundo, essa gente entupida de gravatas, cargos e preconceitos se esquece de que o mundo não cabe em suas réguas. O progresso de uma nação não nasce da arrogância de quem esbraveja em um palanque, mas do barulho das marmitas que se abrem ao meio-dia, do suor das mãos que pegam no pesado de madrugada e da dignidade silenciosa de quem, de norte a sul, levanta cedo para carregar o país real nas costas.

​O homem na tela que continue prisioneiro da sua pequena e triste aristocracia de gabinete. O Brasil de verdade — o nosso Brasil — é imensamente maior do que a pequenez do seu preconceito.

​Emylson Farias
Delegado de polícia

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