Sempre achei que a vida fosse feita de pequenos detalhes. O cheiro do pão amanhecido, o cheiro úmido da madrugada que levanta da terra, o bom-dia meio rouco do vizinho que limpa o capim do quintal com a enxada antes do sol nascer.
Na minha infância, recordo de dois antigos moradores da minha rua. Viviam num entrevero danado por causa de futebol e de coisas de governo. Gritavam da janela, gesticulavam no ar, pareciam inimigos mortais até o meio-dia. Mas bastava um temporal no fim da tarde para ver os dois, debaixo da mesma chuva, abrir caminho na terra da rua plana para a água não empoçar, nem virar aquela lama podre de mau cheiro na porta de ninguém.
Não se perguntava de que lado estava o voto de cada um; a enxada batia na mesma lama para salvar o sossego de todos.
A gente cresceu achando que aquela lição simples da rua tinha ficado guardada no coração do povo. Mas, passada a eleição, o que se vê por aí hoje é um espetáculo tão triste quanto esquisito. Pessoas que ligam a câmera do celular com o peito cheio de raiva, gravando vídeos para gritar ao mundo que não vendem mais para quem pensa diferente, que vão demitir esse ou aquele, como se o comércio fosse um tribunal e o cliente, um réu.
Acontece que a valentia das telas dura pouco. Basta o caixa esvaziar no dia seguinte, os clientes sumirem e o bolso doer para ver o mesmo valente voltar à rede, de cabeça baixa e voz mansa, ensaiando um pedido de desculpas amarelado. É uma esquizofrenia dos nossos tempos: a pessoa troca a própria alma pelo aplauso do grupo e, quando percebe a solidão da mesa vazia, tenta recolher as cuspidelas que atirou para o alto.
Tudo isso revela uma pressa teimosa de ressuscitar os cadernos poeirentos da República Velha, aquele tempo em que a política se fazia no grito e na rédea curta. O tempo em que a alma do trabalhador vinha grampeada ao recibo do salário e a consciência era tocada no berrante, como gado no pasto.
Naquele coronelismo de chapéu de palha, quem não curvava a espinha para a vontade do patrão perdia o chão, a roça e o pão do filho. Mudaram-se as roupas e os aparelhos, mas o estalo do chicote moral continua o mesmo.
É o eco daquela prepotência em que o empregador se arvora em dono da vida alheia, exigindo que o trabalhador curve não só a espinha, mas também o pensamento. O que se está dizendo, em outros termos, é: “eu sou seu patrão, sou dono da sua consciência e do seu voto”. É puxar de volta a corrente, o pelourinho e o açoite. Um país que traz na história trezentos e cinquenta anos de escravidão formal não tem o direito de flertar com a barbárie de achar que a alma alheia tem preço ou coleira.
Lembro que aqueles dois velhos vizinhos da minha rua podiam até discordar sobre quem devia mandar na cidade, mas nenhum dos dois aceitaria que o outro apontasse o dedo para dizer como ele devia pensar. Sabiam, pelo faro simples do povo, onde terminava a política e onde começava o cabresto.
E o perigo de cutucar essas cinzas é que o fogo do preconceito nunca para por aí. A história humana já viveu dias em que a ignorância virou regra e o ódio ganhou métodos letais — como se viu na Alemanha de 1933, quando comerciantes judeus foram rotulados e desumanizados, com marcas pintadas em suas portas para justificar o saque e a exclusão.
Quando uma sociedade aceita carimbar o vizinho pelo que ele pensa ou vota, ela dá o passo decisivo para o fundo do poço da própria humanidade.
Eles, que sabiam tanto de temporal e de lama, entenderam sem precisar ler nenhum livro o que a nossa época parece ter esquecido: que o mundo não se salva dividindo a rua ao meio, mas desobstruindo a passagem para que todos possam andar.
É por isso que, apesar do barulho dos intolerantes, o tempo tem esse hábito bonito de desmanchar a arrogância dos furiosos. Por mais que tentem erguer muros de pedra entre as casas, a chuva que cai numa horta é rigorosamente a mesma que molha o quintal ao lado.
O vento não pede licença a nenhum coronel para atravessar a cerca, e a vida — teimosa como erva daninha que racha o asfalto — insiste em nos lembrar de que somos todos feitos da mesma matéria imperfeita.
Passada a poeira do palanque e o barulho dos rojões, o que sobra na rua são apenas homens e mulheres. Com fome, com sede, com dores no joelho e contas para pagar. Quando a poeira baixa no campo de batalha, não há vencedores vistosos: há apenas feridos que precisam de atadura, não importa a cor do uniforme que vestiam.
A verdadeira civilização não se mede pelo barulho da vitória, mas pela capacidade de sentar à mesa com quem pensa diferente e ainda assim desejar-lhe um bom apetite. O resto é ignorância fantasiada de convicção.
Apesar de tudo, que me desculpe a pressa dos nossos tempos, mas eu continuo preferindo o pão morno, a conversa sem carimbo e a certeza de que, por trás de qualquer bandeira, existe sempre um irmão precisando de um remendo no sapato.
Emylson Farias
Delegado de Polícia

