O café no copo descartável já tinha esfriado há muito tempo. Ele rodava o copo de plástico devagar entre os dedos, os olhos fixos na mesa, sem encarar nada em particular. Estávamos ali na Delegacia da Mulher, aqui mesmo em Rio Branco.
Já passava das sete da noite, mas aquela ocorrência não ia embora com o fim do plantão. Meu colega delegado — que já viu de tudo nessa vida de distintivo — desabafou com uma voz fina, quase um sussurro de quem tenta engolir um nó seco na garganta. Falou da frieza dos depoimentos, da postura quase natural do agressor e do silêncio assustado de duas garotinhas sentadas num banco de madeira. Um policial da reserva. Alguém que um dia vestiu a farda para proteger.
Ele tentava processar o absurdo do que acabara de investigar: um policial que tirou a vida da mãe daquelas meninas, uma mulher indefesa, bem diante dos olhos das duas filhas — duas crianças de apenas três e sete anos de idade. Um crime que rompeu de uma só vez o laço da maternidade, o dever da farda e a infância daquelas garotas.
— A gente estuda o direito, cumpre o protocolo, assina o inquérito… mas nós somos de carne e osso — ele disse, olhando para o vazio da sala. Em casa, esperava por ele uma filha recém-nascida.
— Como é que a gente volta para casa, olha para o berço da própria filha e dá um abraço na família depois de ver o chão de uma casa ser arrancado desse jeito?
Fiquei com aquele silêncio pesado martelando no peito. É uma dor que vem de longe, que parece entranhada nas raízes da nossa terra e do nosso povo. A gente olha para a história do nosso Acre e enxerga a sombra antiga do seringal. Nas colocações de centro, no meio da mata fechada, o corte da seringueira não tirava só o leite da árvore; talhava também um patriarcado duro, onde a mulher aprendia desde menina a resignação, o silêncio e o servir. Criaram-se gerações de irmãs, mães e filhas sob a ordem da submissão.
A gente tende a achar que essa dor é um atraso só nosso, uma poeira presa às margens dos nossos rios, e que basta caminhar para longe para esquecer o peso da terra. Mas o feminicídio não respeita fronteiras nem pede licença aos mapas. Ele viaja na bagagem dos que partem.
Foi assim com a nossa conterrânea Glória Perez. Ela deixou o Acre ainda jovem, levada pelos caminhos da vida até o Rio de Janeiro. Poderia parecer que, ao cruzar o país e alcançar o centro urbano mais reluzente do Brasil, ela teria se abrigado longe daquela brutalidade antiga do interior.
Mas a ilusão da distância caiu por terra de forma trágica. O pesadelo que levou a vida de sua filha, anos mais tarde, provou que esse machismo tétrico e essa dominação violenta não têm endereço fixo, sotaque ou geografia: são uma teia espalhada pelas veias de todo o Estado brasileiro.
Essa marca é do país inteiro. O Brasil que hoje chora o feminicídio é o mesmo em que a mulher só conquistou o direito elementar de votar em 1932, no governo Vargas. Durante toda a República Velha, enquanto os homens decidiam os rumos da nação, a mulher era tratada como uma sombra sem voz, sem escolha e sem cidadania. Uma cultura inteira construída para tratar quem dá a vida como objeto ou posse.
Aquelas palavras do meu colega e a imagem das duas menininhas continuaram martelando na minha cabeça. Foi impossível não lembrar das palavras de Glória Perez em um depoimento marcante, onde ela desabafa sobre o assassinato da filha.
Na lembrança das palavras dela, toda essa construção histórica e a dor vivida na delegacia se encontraram num só ponto. Ver uma mãe falar da filha arrancada é ver a anatomia de um golpe que nunca cicatriza.
O que ouvi ela dizer batia forte no coração. Em cada frase dita por aquela mãe, Glória expôs as entranhas daquilo que a violência produz:
— Não tem como virar a página para a existência de um filho. Quando se mata uma pessoa, mata-se tudo o que ela poderia ter feito em vida.
Fez uma pausa dolorosa e continuou:
— Mata-se o futuro. As pessoas que estariam ao nosso lado e que foram sumariamente excluídas desse convívio. Os netos que não virão, os Natais que teríamos juntos… A plenitude que se acaba e a felicidade que passa a ser, até o fim dos dias, uma felicidade pela metade.
O feminicídio não é só o disparo ou o golpe no instante do crime. É a ausência que se prolonga pelas décadas. É a cadeira que sobra na mesa de domingo, o abraço de Ano Novo que fica suspenso no ar, o portão da frente que nunca mais vai se abrir com o riso de quem chegava.
E quando o dia amanhece, a gente olha para o nosso parlamento estadual e percebe como o fantasma de 1932 continua rondando as urnas: nenhuma mulher eleita na nova composição. Nenhum rosto feminino na tribuna para falar da dor, do medo, do amparo e da vida de suas iguais. O patriarcado que mata dentro de casa é o mesmo que apaga a mulher dos espaços onde se decide o futuro.
Nós, homens e mulheres de coração e distintivo, continuaremos atendendo aos chamados, colhendo depoimentos e lavrando os autos. Mas enquanto o país continuar carregando essa herança secular de posse e o poder público continuar cego para esse vazio de vozes femininas, continuaremos a ver famílias inteiras recolhendo os cacos do que sobrou — tentando aprender a respirar numa terra de felicidades cortadas ao meio.
Emylson Farias
Delegado de Polícia
