Integrar a produção agropecuária e o patrimônio ambiental brasileiro como recursos de poder deve orientar uma atuação pragmática do próximo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Na avaliação de Alberto Pfeifer, professor do Insper Agro Global e especialista em geopolítica e agronegócio, o país precisa articular esses ativos em uma estratégia que amplie sua influência internacional e dê condições para a continuidade dos investimentos no campo.
Para o professor, essa integração exige superar a separação entre políticas ambientais, agricultura familiar e produção empresarial que marcou o mandato que termina neste ano. Embora o governo tenha aberto mercados para os produtos brasileiros, Pfeifer avalia que os avanços ocorreram de forma fragmentada, sem consolidar o agronegócio como instrumento estratégico de projeção do Brasil.
“O espaço do meio ambiente não se comunicava com o agronegócio. O espaço da agricultura familiar não tinha comunicação com a agricultura empresarial. Falta essa visão”, afirma.
Na leitura do especialista, a contribuição do setor vai além da exportação de alimentos e da geração de divisas. A capacidade produtiva e os ativos ambientais podem fortalecer a posição brasileira como provedor de segurança em diferentes áreas. Transformar esse potencial em influência, porém, depende de uma orientação integrada do governo.
Essa agenda terá de avançar em um ambiente de acomodação política após a eleição. Segundo Pfeifer, o agronegócio apoiou majoritariamente Flávio Bolsonaro por identificar no candidato maior alinhamento às suas pautas. Com a vitória de Lula, o setor precisa adaptar sua atuação à realidade do próximo mandato.
O professor também recomenda cautela na interpretação do avanço de Lula em estados com forte presença agropecuária. Em sua avaliação, o resultado pode refletir maior participação ou apoio de eleitores das áreas urbanas, sem necessariamente indicar uma mudança de preferência entre os produtores rurais.
Pfeifer considera que governadores e parlamentares ligados ao agro terão papel relevante na interlocução com o Executivo. A questão, afirma, é se essa representação conseguirá converter força política em medidas concretas para o setor em um governo que ele avalia como menos próximo do agronegócio.
No curto prazo, a atenção se volta às sinalizações sobre a composição da equipe econômica. Para o especialista, as escolhas do presidente ajudarão a definir as expectativas para juros, câmbio e inflação e, consequentemente, as decisões de investimento dos produtores.
Pfeifer afirma que parte dos investidores havia construído posições com base na expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro e na perspectiva de maior disciplina fiscal e simplificação do ambiente de negócios. O resultado eleitoral exige uma revisão dessas apostas, com ajustes nos preços dos ativos.
Por isso, considera que a reação imediata do mercado deve ser interpretada com cautela, embora represente um sinal de preocupação que merece atenção do presidente reeleito. Na avaliação do professor, uma orientação favorável à previsibilidade econômica também pode ocorrer no governo Lula, a depender das decisões anunciadas após a eleição.
No campo, a postura descrita pelo especialista é de espera: preservação de caixa, contenção de investimentos e acompanhamento das primeiras definições do próximo governo.
A produção continuará, mas a manutenção de investimentos capazes de elevar a produtividade depende de condições mais previsíveis. Juros altos, instabilidade cambial e falhas nos instrumentos de proteção contra perdas climáticas dificultam esse planejamento, segundo Pfeifer.
Nesse cenário, o seguro rural aparece como uma das prioridades. O professor estima que a cobertura alcance cerca de 5% no Brasil, enquanto, em países avançados, varia de 40% a 90%. Para ele, ampliar o acesso ao instrumento tem uma função que ultrapassa a compensação financeira após uma quebra de safra.
Ao reduzir a exposição às perdas, o seguro também pode dar suporte ao financiamento e ampliar a capacidade de investimento dos produtores. Assim, a proteção da produção se conecta à agenda de crédito e ao aumento da produtividade.
Para Pfeifer, a resposta aos desafios do agro passa por um compromisso explícito do próximo governo com previsibilidade econômica, eficiência produtiva e redução de entraves burocráticos. É essa combinação que poderá estimular o setor a retomar investimentos e permitir ao Brasil transformar sua força agrícola e ambiental em maior influência internacional.
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por isadoracamargo.

