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A federação PSOL/Rede teve quase 3 milhões de votos para a Câmara dos Deputados em São Paulo, mas conquistou apenas seis cadeiras no último domingo (4), após o primeiro turno das eleições. Já a Federação Brasil da Esperança (PT/PCdoB/PV) obteve 2,7 milhões de votos e garantiu 11 cadeiras no estado. O contraste expõe como uma federação única formada pelos partidos de esquerda em São Paulo teria a vantagem matemática de ampliar a presença do Partido Socialismo e Liberdade no Congresso.
O resultado se deve à concentração de votos em duas candidatas, Erika Hilton e Sâmia Bomfim. Como medida para evitar que candidatos com muitos votos puxassem outros com votação pouco expressiva, o TSE determinou que, para ser eleito, o político deve ter 10% do chamado quociente eleitoral. Na corrida por São Paulo, isso seria o equivalente a atingir 35 mil votos, mas apenas seis candidatos do PSOL superaram essa barreira.
“O PSOL/Rede elegeu 15 deputados, mas não cumpriu a cláusula de desempenho porque esses mandatos ficaram concentrados em seis estados. Pela outra regra, a federação precisava alcançar 1,5% dos votos em nove UFs e chegou a oito. Numa federação com PT, PCdoB e PV, esse problema simplesmente não existiria”, disse Renato Dolci, cientista político.
Especialistas alertam, entretanto, que o impacto de uma “superfederação” não pode ser medido apenas pela soma nacional de votos. Como a disputa para a Câmara é dividida em 27 eleições estaduais independentes, a transferência e o aproveitamento de “votos sobrantes” dependem do desempenho de cada chapa, estado por estado. Por exemplo, um voto excedente no Rio de Janeiro não socorre uma candidatura em São Paulo.
Para Alexandre Bissoli, advogado especialista em Direito Eleitoral e Partidário, foi justamente no gargalo estadual que o PSOL deixou de converter votos em assentos.
“O PSOL deixou de ocupar cerca de sete cadeiras a que teria direito porque seus candidatos de final de chapa não atingiram a cláusula de barreira individual. Se estivessem em uma superfederação, os candidatos mais votados do PT ou do PCdoB teriam preenchido essas vagas com os votos sobrantes do PSOL”, destaca Bissoli.
A atual composição da Câmara dos Deputados para 2027 é majoritariamente de direita e centro-direita, com o bloco da oposição encabeçado pelo PL (Partido Liberal) chegando a mais de 75% dos assentos.
“No atual cenário, qualquer tipo de coalizão de todas as esquerdas parece fazer sentido”, disse Leonardo Paz Neves, pesquisador político da FGV.
Segundo ele, o momento impõe uma pauta defensiva aos partidos de esquerda e centro-esquerda para tentar barrar o “desmonte de pautas progressistas e de direitos adquiridos, até constitucionais”.
“Todos os partidos da esquerda têm que agir em uníssono o tempo todo, durante os próximos quatro anos, e ainda vão ter que tentar brigar muito para seduzir grande parte dos partidos que estão mais ao centro, porque, de novo, os partidos da direita e extrema-direita já têm mais de 50%, já estão com a maioria da Câmara e Senado completamente garantidos”, disse Neves.
Em março deste ano, Guilherme Boulos, principal entusiasta da coligação, foi derrotado após o Diretório Nacional do PSOL rejeitar a proposta de ingressar em uma federação com o PT (Partido dos Trabalhadores). Com um placar de 47 votos contrários e apenas 15 favoráveis, o partido optou por preservar sua autonomia institucional, evitando uma fusão administrativa que duraria, no mínimo, quatro anos.
De acordo com Dolci, se o único objetivo da sigla fosse transformar votos em cadeiras, estar em uma federação maior tenderia a ser mais racional. Por outro lado, uma federação não é uma coligação eleitoral de ocasião.
“É um compromisso nacional de quatro anos, com atuação conjunta no Congresso e uma coordenação política muito mais profunda. Para o PSOL, entrar na federação liderada pelo PT significaria abrir mão de parte da capacidade de se apresentar ao eleitor como uma esquerda autônoma, inclusive para apoiar o governo em determinados temas e criticá-lo em outros.”
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por polianafarias.

