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Após o Ibovespa superar a máxima histórica e se manter acima dos 205 mil pontos nesse início de semana em reflexo ao resultado do 1º turno das eleições gerais, parte do mercado correu para rever suas perspectivas sobre o país.
J.P. Morgan, Morgan Stanley e Citi estão entre os grandes bancos de investimento estrangeiros que passaram a ver um brilho maior nas ações brasileiras.
Entre essas instituições – e os investidores num geral – o consenso é de que o resultado do primeiro round entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pavimenta o caminho para uma reforma fiscal estruturante.
Este é o “calcanhar de Aquiles” que mais embute prêmio de risco ao Brasil, segundo Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management.
“O Brasil tem vivido com alto prêmio de risco embutido nos ativos, e o fiscal é relevante nesse sentido. A descompressão de risco explica euforia de segunda-feira. Nas últimas eleições não tinha essa prêmio tão alto”, pontua Srour.
Revisões
O J.P. saiu na frente com relatório elevando a recomendação das ações brasileiras de “neutral” para “overweight” – assumindo indicação para os investidores comprarem ativos ligados ao país, em tradução livre do “economês”.
Em agosto, o banco de investimento havia rebaixado o Brasil. Agora, porém, afirma ver um perfil de risco-retorno mais favorável para o mercado após o recente resultado do primeiro turno da eleição presidencial do país.
O J.P. Morgan avaliou que o desfecho da primeira volta reduziu a incerteza política do cenário, de modo que o potencial de alta do país se mostra melhor do que o de qualquer outro mercado da América Latina.
Na mesma linha, o Morgan Stanley revisou sua recomendação das ações brasileiras para compra. Os analistas da casa projetam alta entre 15% e 20% do Ibovespa até o fim deste ano, em caso de mudança na política fiscal do governo federal.
Ambos os bancos veem o salto da Bolsa podendo bater os 250 mil pontos.
O Morgan Stanley vê o mercado em um momento inicial de “rebalanceamento” com as expectativas por uma “consolidação fiscal”, o que aumenta o potencial de crescimento da Bolsa do Brasil à medida que o prêmio de risco cai.
“Acreditamos que uma estrutura de crescimento mais robusta, impulsionada por investimentos, poderia sustentar prêmios de risco mais baixos e também impulsionar uma formação de capital mais forte”, indica o relatório do banco.
“O ambiente de negócios favorável criaria um potencial de ganhos maior para os setores financeiro, de serviços públicos e industrial, embora leve mais tempo para que os ganhos se difundam para os setores de consumo”, pontua.
Por sua vez, o Citi aumentou seu posicionamento em ações brasileiras, também de olho no resultado do primeiro turno.
No domingo (4), o senador Flávio Bolsonaro encerrou à frente do presidente Lula, com 47,03% contra 45,16% do petista. No dia seguinte, o Ibovespa registrou o maior rali após uma primeira volta, com alta de mais de 7% e fechando pela primeira vez acima dos 200 mil pontos, chegando a marcar 209.605,70 na máxima, o maior nível intradiário já registrado.
“Bolsonaro é o candidato mais favorável ao mercado, prometendo austeridade fiscal, privatizações, desregulamentação e cortes no IVA [Imposto sobre Valor Agregado]. O bom desempenho de seu partido no Senado deve facilitar a aprovação de sua agenda legislativa”, pondera o time de estratégia da casa, sublinhando o avanço da direita no Congresso como um fator que deve sustentar um eventual governo Flávio.
“Comparado ao atual presidente Lula, Bolsonaro é o candidato mais popular entre os investidores”, reforça.
Benefício da dúvida
Em seu plano de governo, o filho “01” do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) traz como sua “bandeira” um “tesouraço”.
Porém, entre jargões soltos como “Mais Brasil e menos Brasília” e “Enxugar a Máquina e Profissionalizar a Gestão Pública”, o mercado ainda vê falta de clareza sobre o que de fato será feito para “colocar as contas em ordem para juros e inflação menores”, como promete o documento entregue ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
“Por enquanto prevalece o benefício da dúvida. Passamos os últimos anos com aumento significativo do gasto obrigatório, que o arcabouço não conteve. Então, o mercado coloca o benefício da dúvida com preço importante”, pondera Solange Srour.
“A continuidade da política de hoje vai levar a dívida/PIB a subir, e entre um cenário em que o ‘mais do mesmo’ vai levar a crescimento mais acelerado da dívida e benefício da dúvida sobre o que virá, o mercado escolhe esperar”, pontua a diretora do UBS Global Wealth Management.
A CNN Brasil apurou que a equipe econômica de Flávio estuda uma nova “PEC da Transição”, mas dessa vez mirando o enxugamento da máquina pública. O alvo: um corte de gastos na ordem de R$ 300 bilhões.
O mercado reconhece que para essa cifra de fato se concretizar serão necessárias medidas impopulares, o que deve explicar a falta de sinalizações mais claras enquanto as eleições não são concluídas de fato.
“Temos, inclusive, muitas gestoras locais questionando se o governo conseguirá superar a chamada fadiga do ajuste fiscal e até que ponto essas medidas serão efetivamente implementadas na prática”, aponta Fernando Saad Benatti, estrategista global da Avenue.
Os investidores estarão atentos sobre quem serão os membros da equipe econômica de Flávio e quais serão as propostas. O prazo é o período após o segundo turno.
Mas se as medidas contemplarem apenas cortes de Ministério, novos pentes-finos em programas sociais e venda de patrimônios públicos, Srour enfatiza que os agentes econômicos devem começar a retirar o benefício da dúvida.
O risco é que o mesmo movimento de disparo pode virar um estouro, explica Benatti, qualificando o posicionamento dos investidores estrangeiros como uma “alocação tática”.
“Qual é o problema de ser uma alocação tática? É que, da mesma forma que esse dinheiro entra muito rapidamente quando o cenário melhora e a perspectiva para o país se torna mais positiva, ele também pode sair rapidamente quando a percepção de risco em relação ao Brasil aumenta”, afirma o analista da Avenue.
“E embora juros menores tendam a favorecer as empresas e a bolsa brasileira, o cenário continua desafiador, tanto do ponto de vista fiscal quanto do crescimento. O mercado ainda não tem clareza sobre a intensidade dessa desaceleração da economia brasileira”, conclui.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por joaonakamura.

