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Ao longo de quase quatro décadas, Russell T Davies se consolidou como um dos showrunners de TV mais influentes do Reino Unido — e da comunidade queer global. Em séries como “Queer as Folk”, “Years and Years”, “It’s a Sin” e “A Very English Scandal”, Davies explorou o lugar em constante evolução da comunidade LGBTQ+ na sociedade.
Ele jamais imaginou que estaria criando uma série ambientada em 2026, onde as coisas pareciam estar piorando para seus personagens LGBTQIA+.
“Fico meio triste porque, tendo feito ‘Queer as Folk’ em 1999, eu imaginava que 2026 seria um ano muito mais feliz, com igualdade de direitos para gays em todos os lugares, em vez de ver as coisas dando errado”, disse Davies. “Há tanto ódio. Há tanto medo. Há tanto veneno sendo incitado por vozes muito poderosas e muito influentes.”
Em sua nova série “Tip Toe”, Davies encontra inspiração criativa na retórica odiosa sobre pessoas queer que tentam recrutar crianças — um clichê usado há muito tempo para minar os direitos LGBTQ+ e que recentemente ressurgiu.
“A impossibilidade disso está se aproximando de nós de forma rápida e tumultuosa”, disse Davies. “Meu Deus, eu precisava escrever sobre isso.”
A série “Tip Toe” começou a ser transmitida nos EUA pela rede Starz na sexta-feira, após sua estreia no Reino Unido em maio. (E deve estrear no Brasil em 16 de outubro, pela HBO Max.)
A história começa em Manchester, onde um personagem chamado Leo (interpretado por Alan Cumming, apresentador da série “The Traitors”, vencedora do Emmy) administra um bar gay, enquanto também lida com o comportamento cada vez mais agressivo de seu vizinho hétero, Clive (David Morrissey). Preso em um casamento do qual não pode se divorciar e em uma sociedade que mudou rapidamente, deixando-o com uma sensação de desconforto, a raiva de Clive é alimentada aos poucos pelo que ele consome nas redes sociais, até que ele se convence de que Leo está assediando seu filho adolescente, George (Jackson Connor).
Ao longo de cinco episódios, “Tip Toe” explora como as divisões geracionais e de gênero, a desinformação, a radicalização online e a retórica política podem ser fatais para a comunidade queer. É um ambiente do qual Davies e seus personagens esperavam ter superado. “Você acha que isso vai voltar? Todas aquelas coisas dos anos 90? Éramos desprezados, mas você lê as coisas online agora e soa exatamente igual”, diz Melba (Paul Rhys), frequentadora assídua do bar, para Leo no episódio de estreia. “Eu costumava entrar em uma sala e dizer: ‘Tah-dah!’ Agora, eu ando na ponta dos pés — só por precaução.”
O aumento da frequência de linguagem e estereótipos depreciativos sobre pessoas queer, antes considerados terrivelmente ultrapassados, teve impactos na comunidade LGBTQ+ que vão muito além do cancelamento de encontros com drag queens para contar histórias. O apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos, por exemplo, começou a declinar ligeiramente desde 2022, segundo o instituto de pesquisa Gallup, após décadas de crescimento. O governo de Donald Trump também aproveitou o momento para atacar ativamente pessoas transgênero em questões de identificação, assistência médica e esportes, com a ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis) acusando a Casa Branca de tentar “excluir pessoas transgênero da vida pública”.
Para Davies, parte dessa hostilidade foi sentida em primeira mão em algumas ocasiões. Depois de escalar a atriz transgênero Yasmin Finney para o revival de “Doctor Who” em 2023, Russell disse que intolerantes online começaram a atacá-lo com abusos, chamando-o de pedófilo e aliciador. “Chega a um ponto em que você pensa: ‘O quanto corro perigo por causa disso?’”, disse. “Por dez anos, fiquei indiferente, mas agora acho que estamos vendo um mundo em que a raiva online está se manifestando no mundo real.”
Davies citou o recente assassinato de dois homens em frente a um bar gay em Tucson, Arizona, por um atirador que supostamente portava uma lista de estabelecimentos LGBTQ+, como mais uma prova de que o ambiente para pessoas queer se tornou mais ameaçador. “É assim que o mundo está agora. É aterrorizante”, alertou.
Em “Tip Toe”, Melba parece dar voz à opinião de Davies sobre a origem de grande parte dessa invectiva: o presidente Trump. Davies afirmou acreditar que líderes como Trump e o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro serviram de modelo de comportamento agressivo para seus apoiadores. “Quando seus líderes fazem isso, você pensa que é natural e permitido”, disse.
Mas partes de “Tip Toe” também flertam com a ideia de que o sucesso da representação queer na cultura popular — graças, em grande parte, a obras inovadoras como as de Davies — tem sido uma faca de dois gumes. Em um episódio, Clive se enfurece por não conseguir ligar a televisão sem ver personagens que, em sua opinião, estão normalizando identidades que lhe parecem estranhas e que só o deixam mais irritado. “Lutamos para sermos vistos, mas e se errarmos?”, Leo questiona em certo momento. “E se eles nos virem e ainda assim não gostarem de nós?”
Davies disse acreditar que parte de seu trabalho como criador de séries de TV é registrar historicamente como é ser uma pessoa queer em diferentes momentos da história. Acontece que, no momento, ele tem uma visão bastante sombria do mundo.
Ele lembrou de um casal transgênero em um evento que lhe contou o quão aterrorizados estavam. “E essa é a Grã-Bretanha em 2026”, disse. “Que p**** está acontecendo?”
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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por tamirisgomes.

