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O apagão às avessas que o próximo governo vai herdar 

O apagão às avessas que o próximo governo vai herdar 

Há 25 anos, o Brasil parou por falta de energia. O racionamento de 2001 apagou vitrines, encurtou expedientes e obrigou o país a repensar todo o seu sistema elétrico. Um quarto de século depois, o próximo governo vai herdar o problema inverso: um apagão às avessas. Sobra energia limpa — e falta onde guardá-la.

Somente em 2025, os cortes na geração renovável determinados por restrições operativas do sistema, o chamado curtailment, superaram R$ 6 bilhões em desperdício econômico. Ao mesmo tempo, nos períodos de maior demanda, o sistema seguiu acionando termelétricas mais caras e mais poluentes.

Esse paradoxo não é uma falha das energias renováveis. É um sinal de sucesso que o planejamento não acompanhou. Em uma década, a energia solar se tornou a segunda maior fonte da matriz elétrica brasileira, a eólica se consolidou, consumidores passaram a produzir e gerenciar a própria energia e novas cargas intensivas em eletricidade começaram a chegar.

A isso se somam a expansão dos sistemas de armazenamento e a inversão de fluxo nas redes de distribuição, desenhadas para um mundo em que a energia corria em um único sentido. O sistema elétrico mudou de tamanho e de natureza — e o modelo de planejamento precisa evoluir na mesma velocidade, sob pena de transformar uma vantagem competitiva em gargalo.

Às vésperas do segundo turno das eleições majoritárias, quando a sociedade definirá os responsáveis pelas políticas públicas do ciclo 2027-2030, essa é a discussão que precisa ocupar espaço central na agenda. O desafio do próximo governo será transformar a abundância de recursos naturais do país em segurança energética, competitividade, investimentos, empregos e eletricidade de qualidade a preços justos — em um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e severos, que torna a resiliência do sistema elétrico uma condição básica de desenvolvimento.

A resposta mais direta ao apagão às avessas tem nome: armazenamento. Bancos de baterias absorvem a energia que hoje é cortada e a devolvem ao sistema quando a demanda cresce, aumentando a flexibilidade da operação, reduzindo desperdícios e diminuindo a necessidade de acionar térmicas nos horários de pico.

Trata-se de uma questão de eficiência econômica e de segurança energética: não basta instalar mais capacidade de geração se o país não tiver condições de transportar, armazenar e utilizar essa energia quando ela é necessária.

O primeiro passo já foi dado. A regulamentação avança e as diretrizes para o primeiro leilão de reserva de capacidade por meio de baterias, previsto para 2026, estão estabelecidas. Mas uma contratação pontual não cria um mercado. Para o ciclo 2027-2030, será preciso uma política contínua, com leilões anuais de capacidade e estímulo à associação entre armazenamento e geração solar, tanto em grandes usinas quanto na geração própria dos consumidores.

É a previsibilidade dessa contratação que dará escala aos investimentos, reduzirá custos e permitirá incorporar as baterias ao sistema de forma planejada, e não como remendo de emergência.

É essa a direção da agenda que a Absolar apresentou às candidaturas: a contratação de pelo menos 8 gigawatts (GW) de sistemas de armazenamento, a expansão de 18 GW em grandes usinas solares e a ampliação do acesso à energia limpa para 3 milhões de unidades consumidoras até 2030. Mais do que metas setoriais, esses números dão a dimensão da escala necessária para que o Brasil aproveite seus recursos renováveis e prepare o sistema elétrico para as transformações já em curso.

Há, porém, um obstáculo que não pode ser ignorado: a carga tributária sobre sistemas de armazenamento chega a 84,8% — um contrassenso que encarece justamente a tecnologia de que o sistema elétrico mais precisa para ganhar flexibilidade. Construir um ambiente tributário coerente com os objetivos da transição energética é parte inseparável dessa agenda.

Armazenamento, por si só, tampouco resolve tudo. A expansão das redes de transmissão será igualmente decisiva, conectando as regiões com maior disponibilidade de recursos renováveis aos novos centros de consumo. Geração e infraestrutura precisam ser planejadas de maneira coordenada — a oferta não pode crescer dissociada da demanda, nem a contratação de novas cargas prescindir de redes compatíveis.

Essa coordenação será ainda mais estratégica diante da nova corrida global por energia limpa. Data centers, hidrogênio verde, indústrias eletrointensivas e a eletrificação dos transportes estão redesenhando o mapa mundial dos investimentos — e escolhendo seus destinos, cada vez mais, pela disponibilidade de eletricidade renovável, abundante e competitiva. Poucos países reúnem essas condições como o Brasil.

Com planejamento de longo prazo e previsibilidade regulatória, a abundância renovável pode se converter em atração de capital e em uma nova base industrial para a economia brasileira — uma parcela relevante dos investimentos globais associados à economia de baixo carbono que hoje disputa destino.

O apagão às avessas tem ainda uma face social que não pode ficar em segundo plano. Enquanto o sistema interligado desperdiça energia limpa, milhões de famílias e pequenos negócios convivem com fornecimento precário e com o peso crescente da conta de luz — e, em muitas regiões isoladas, dependem de geradores a diesel, caros e poluentes, sob um dos melhores sóis do mundo.

A combinação de geração solar e baterias pode substituir o diesel, reduzir custos e melhorar a qualidade do atendimento. Por isso, das 3 milhões de unidades consumidoras previstas na agenda da Absolar, 500 mil estão em sistemas isolados: descarbonização e universalização precisam caminhar juntas.

O desafio, portanto, não é escolher entre expandir a geração, investir em baterias, reforçar as redes ou ampliar o acesso à energia. Essas frentes são partes de uma mesma estratégia — e, sem elas, o país corre o risco de seguir ampliando sua capacidade de geração sem capturar integralmente os benefícios econômicos dessa expansão.

Armazenamento, transmissão, digitalização, gestão da demanda e novas tecnologias precisam ser tratados de forma integrada, para enfrentar gargalos que já afetam o funcionamento do sistema ao mesmo tempo em que se abre espaço para novos usos da eletricidade.

Independentemente das escolhas feitas nas urnas, a transição energética continuará avançando, e o próximo governo encontrará sobre a mesa questões que já estão presentes no sistema elétrico: o desperdício de energia renovável, a necessidade de maior flexibilidade, as restrições de transmissão, a chegada de novas cargas, a modernização regulatória e a desigualdade no acesso à energia de qualidade.

Em 2001, a escassez obrigou o Brasil a repensar seu sistema elétrico. Em 2027, caberá ao novo governo responder ao desafio oposto — e bem mais promissor: garantir que o país não desperdice a abundância que construiu, transformando energia limpa de sobra em desenvolvimento, indústria e qualidade de vida para os brasileiros.

* Por Bárbara Rubim, presidente do Conselho de Administração da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica)

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por robsonrodrigues.

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robsonrodrigues

Autor da publicação.

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