Pular para o conteúdo

Por que o Egito pode se envolver no conflito entre Arábia Saudita e Houthis

Por que o Egito pode se envolver no conflito entre Arábia Saudita e Houthis

Espera-se que o parlamento do Egito vote para autorizar ou não as Forças Armadas a ajudar na defesa da Arábia Saudita contra ataques dos Houthis do Iêmen, caso Riad solicite esse apoio.

A medida aproximaria o país mais populoso do mundo árabe de um envolvimento militar direto nos conflitos em expansão, desencadeados pela ofensiva aérea dos EUA e de Israel contra o Irã em fevereiro.

O presidente Abdel Fattah al-Sisi solicitou a aprovação em um discurso no sábado (17), afirmando que o Egito “jamais, jamais esquecerá nossos irmãos no Golfo” e assegurando aos líderes da Arábia Saudita que o Cairo “tomará qualquer medida para protegê-los”.

Assim como os Estados do Golfo, que sofreram ataques por parte de Teerã durante o conflito, o Egito é um parceiro de longa data na estrutura de segurança liderada pelos EUA — uma estrutura que agora está sendo posta à prova pelas guerras na região.

Qual a posição do Egito sobre a guerra com o Irã

Presidente do Egito Abdel Fattah al-Sisi em Paris • 26/11/2014 REUTERS/Charles Platiau

As declarações de Sisi marcaram uma clara escalada em relação ao tom mais cauteloso que as autoridades egípcias vinham adotando desde o início do conflito com o Irã. Embora o Egito tenha manifestado, repetidas vezes, forte apoio aos seus aliados no Golfo, o Cairo evitou, até o momento, comprometer-se publicamente com uma participação direta em combates.

Em maio, a presença de caças egípcios Rafale nos Emirados Árabes Unidos foi revelada pela mídia estatal emiradense durante a cobertura de uma visita oficial de Sisi. A cobertura egípcia sobre a visita não mencionou esse deslocamento. Quando a Arábia Saudita assinou um acordo de defesa conjunta com a Turquia e o Paquistão, em agosto, Cairo não aderiu, embora tenha declarado que estava analisando a possibilidade.

O tom começou a mudar depois que os Houthis intensificaram os ataques contra instalações petrolíferas e outras infraestruturas na Arábia Saudita. No mês passado, o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, visitou o Egito, onde discutiu a necessidade de garantir a liberdade e a segurança da navegação no Estreito de Bab el-Mandeb e no Mar Vermelho — regiões ao longo das quais ambos os países possuem extensas costas.

O que está em jogo para o Egito?

A estabilidade econômica de Cairo está, há muito tempo, vinculada aos países do Golfo, grandes produtores de petróleo. As remessas enviadas por trabalhadores egípcios que vivem na região constituem uma fonte importante de divisas e de renda para suas famílias no Egito, em um momento marcado por uma inflação de dois dígitos, agravada pela disparada nos preços dos alimentos e dos combustíveis.

A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e outros países do Golfo têm estado entre os principais apoiadores financeiros de Sisi, fornecendo dezenas de bilhões de dólares em ajuda, depósitos no banco central e investimentos desde que o exército derrubou o presidente Mohamed Morsi — uma figura de destaque da Irmandade Muçulmana — em 2013.

“Nunca poderemos esquecer como nossos irmãos nos Estados do Golfo apoiaram o Egito durante aquele período”, disse Sisi em seu discurso.

Dados do Banco Central egípcio mostram que a Arábia Saudita mantém um depósito de US$ 5,3 bilhões (cerca de 27 bilhões de reais) na instituição, com vencimento neste mês, além de US$ 267 milhões (1,3 bilhões de reais) em juros.

E quanto à segurança?

Segundo analistas, preocupações crescentes com a segurança também levaram o Cairo a adotar uma postura mais ativa. Um ataque com drones contra duas embarcações de gás no porto de Damietta, no Mediterrâneo, em julho, evidenciou que o Egito não poderia esperar permanecer totalmente isolado do conflito.

“Acredito que eles percebem que não podem ficar à margem dessa questão indefinidamente”, afirmou H. A. Hellyer, pesquisador do think tank Royal United Services Institute.

Para as autoridades, as preocupações econômicas e de segurança são “uma coisa só”, disse ele.

A Arábia Saudita e o Egito também compartilham o interesse em garantir a navegação pelo Mar Vermelho — uma rota para o petróleo saudita que, por vezes, não consegue passar pelo Estreito de Ormuz.

O Egito arrecada bilhões de dólares anualmente com as taxas cobradas pelo tráfego no Canal de Suez. Essas preocupações convergentes significam que “a segurança da Arábia Saudita constitui uma dimensão da segurança nacional egípcia”, explicou Sherif Aref, pesquisador político e jornalista egípcio.

Canal de Suez, no Egito • Khaled Desouki/AFP/Getty Images

Que tipo de força militar o Egito pode oferecer?

O Egito possui uma das maiores forças armadas do mundo árabe, contando com centenas de milhares de militares na ativa e um vasto arsenal aéreo, terrestre e naval, segundo analistas militares. O país obtém equipamentos de diversas nações; sua força aérea opera caças F-16 (fabricados nos EUA), Rafales (franceses) e MiG-29 (russos).

O país recebe cerca de US$ 1,3 bilhão (R$ 6,5 bilhões) por ano em ajuda militar dos Estados Unidos, montante que auxilia no financiamento da aquisição de equipamentos militares norte-americanos. Washington dispensou, este ano, as condições relativas aos direitos humanos para uma parcela dos recursos, justificando a medida pelo que chamou de “papel útil” desempenhado pelo Cairo desde o início da guerra no Irã.

Nos anos que se seguiram à revolta de 2011, que derrubou o presidente Hosni Mubarak, as Forças Armadas conduziram uma campanha de contrainsurgência contra grupos armados islâmicos na Península do Sinai. O Egito também contribuiu com forças aéreas e navais para a coalizão liderada pela Arábia Saudita, que interveio no Iêmen em 2015, além de realizar ataques aéreos contra alvos do Estado Islâmico na Líbia, durante a guerra civil naquele país.

Uma intervenção que, mais tarde, foi comparada ao envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã.

O Egito não realiza um envio de tropas terrestres ao exterior em grande escala desde a Guerra do Golfo, em 1991, quando suas forças integraram a coalizão liderada pelos Estados Unidos para expulsar as tropas iraquianas do Kuwait. Quase três décadas antes, o presidente Gamal Abdel Nasser enviou forças egípcias ao Iêmen, em uma intervenção custosa que, mais tarde, foi comparada ao envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã.

Que tipo de apoio é provável?

O discurso de Sisi e as declarações subsequentes não especificaram que tipo de forças militares — se é que haverá alguma — o Egito pretende, de fato, enviar. Segundo analistas militares, é improvável que tropas egípcias sejam deslocadas para dentro do território iemenita.

Intervenções mais prováveis ​​poderiam incluir defesa aérea e apoio naval, afirmou Samir Ragheb, oficial militar egípcio da reserva que dirige o think tank Fundação Árabe para o Desenvolvimento e Estudos Estratégicos.

“As ameaças — mísseis e drones — exigem defesa aérea e forças aéreas”, disse ele, acrescentando que a marinha poderia ser utilizada na proteção de embarcações, em operações navais contra a pirataria e na defesa da costa saudita.

Ainda assim, a entrada de mais uma grande força militar convencional árabe não resolveria “de repente o problema dos houthis”, observou Andreas Krieg, professor sênior de estudos de segurança no King’s College de Londres.

“Os houthis são um desafio complexo justamente porque geram um efeito desproporcional por meio de mísseis, drones, forças dispersas e as características geográficas. O Egito não conseguirá eliminar esse problema apenas com bombardeios”, afirmou.

“O que o Cairo pode fazer é fortalecer a resiliência saudita, melhorar o controle sobre o Mar Vermelho, compartilhar o ônus da defesa e elevar o custo político da continuidade dos ataques.”


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN por tomasbraga.

C

tomasbraga

Autor da publicação.

Eleições 2026 — Apuração em tempo realAguardando dados oficiais do TSE
0,00%seções
Ver apuração