Há imagens que dispensam discursos.
E há imagens que desmontam, em poucos segundos, toda uma tentativa de transformar improvisação administrativa em propaganda de governo.
Um vídeo gravado por um morador de Sena Madureira durante o Festival do Mandim 2026 merece mais do que indignação nas redes sociais. Merece explicações públicas, fiscalização e, sobretudo, uma avaliação urgente das autoridades sanitárias e ambientais.
Nas imagens, um curso de água escura, com resíduos visíveis, desemboca no Rio Iaco nas proximidades da praia artificial preparada pela Prefeitura para o festival realizado neste fim de semana no bairro do Amaurílio. São dejetos humanos produzidos em toda a cidade.
De um lado, festa.
Do outro, aquilo que aparenta ser esgoto.
No meio, a população.
É o retrato constrangedor das prioridades da administração do prefeito Gerlen Diniz.
PRAIA ARTIFICIAL PARA ESCONDER UM PROBLEMA REAL
A Prefeitura movimentou máquinas, preparou terreno, instalou palco, tendas, equipamentos de som, iluminação e toda a estrutura necessária para produzir uma praia artificial e realizar o Festival do Mandim.
Mas o esgoto continua sendo um dos grandes problemas de Sena Madureira.
A pergunta é inevitável: como uma administração pública pode convidar famílias para tomar banho em determinado trecho de um rio sem antes assegurar, de forma transparente, que a água naquele ponto apresenta condições sanitárias adequadas?
Se o material mostrado no vídeo for efetivamente esgoto sanitário, como aparenta, o episódio deixa de ser apenas uma demonstração de desleixo administrativo.
Passa a envolver uma questão de saúde pública.
Não basta montar palco.
Não basta espalhar areia.
Não basta ligar caixas de som e divulgar programação.
Antes de transformar o rio em área oficial de lazer, caberia ao Município demonstrar que realizou as avaliações ambientais e sanitárias necessárias e informar à população se aquele trecho apresenta condições adequadas para banho.
Onde estão essas análises?
Foram feitas?
Qual órgão atestou a balneabilidade?
Qual foi o resultado?
Se existem, que sejam imediatamente apresentadas à população.
A FESTA É PÚBLICA. O DINHEIRO TAMBÉM.
Existe outro ponto que exige esclarecimento: quanto custou o Festival do Mandim 2026?
Até agora, segundo levantamento feito pelo O Seringal, não foi localizada uma prestação de contas consolidada que permita ao cidadão saber claramente quanto dinheiro público foi empregado na realização da festa.
Quanto custou a preparação da praia artificial?
Quanto foi gasto com máquinas e terraplanagem?
Palco?
Som?
Iluminação?
Tendas?
Segurança?
Logística?
Publicidade?
Artistas?
Cachês?
Quem recebeu?
Quais empresas foram contratadas?
Quais foram os procedimentos administrativos utilizados?
São perguntas elementares.
Dinheiro público não admite mistério.
Uma administração que encontra recursos para produzir uma grande estrutura festiva também precisa encontrar tempo para publicar, de maneira simples e acessível, cada real gasto com ela.
Não se trata de ser contra festa popular.
Trata-se de estabelecer prioridades e exigir transparência.
AMIGOS DO PODER NÃO PODEM TER TRATAMENTO PRIVILEGIADO
Outro aspecto politicamente delicado merece explicações.
Informações divulgadas no próprio ambiente institucional da Prefeitura apontam participação do radialista e cantor J. Alves, pai do vice-prefeito Elves Danny, na organização do Festival. Ele também aparece entre as atrações da programação.
Isso não permite, por si só, concluir que exista irregularidade.
Mas cria uma obrigação ainda maior de transparência.
Se houve contratação remunerada, a Prefeitura deve informar qual foi o valor, qual procedimento administrativo amparou a contratação e quais critérios foram utilizados.
O mesmo vale para qualquer pessoa politicamente próxima da administração municipal.
Gestão pública não é confraria.
Prefeitura não é extensão de grupo político.
E festa financiada com dinheiro público não pode deixar sequer a aparência de que amigos ou parentes de integrantes do poder possuem portas que permanecem fechadas para os demais.
A melhor resposta a qualquer suspeita é simples: publique-se tudo.
Contratos, empenhos, notas fiscais, cachês, fornecedores, processos de contratação e pagamentos.
Sem sombras.
Sem desculpas.
O ESGOTO NÃO SOME QUANDO COMEÇA O SHOW
O contraste mostrado pelas imagens é especialmente incômodo porque Sena Madureira convive historicamente com graves deficiências de saneamento.
Enquanto a gestão investe esforço, máquinas e estrutura numa praia que existirá durante poucos dias, moradores continuam convivendo com problemas permanentes de coleta e tratamento de esgoto.
É aí que o Festival do Mandim deixa de ser apenas entretenimento e passa a simbolizar uma escolha política.
A administração pública consegue transformar rapidamente uma margem de rio em cenário de festa.
Mas não consegue impedir que águas aparentemente contaminadas cheguem ao mesmo rio.
Isso não é planejamento.
É a política do improviso.
É administrar para a fotografia enquanto o problema real continua correndo por baixo dela.
AMADORISMO QUE PODE CUSTAR CARO
O prefeito Gerlen Diniz precisa compreender que administrar uma cidade não é organizar evento.
Existe uma diferença gigantesca entre produzir espetáculo e fazer gestão pública.
Uma praia artificial instalada nas proximidades de um ponto onde moradores registram lançamento de água escura e resíduos exige, no mínimo, cautela sanitária.
Se a Prefeitura realizou análises e comprovou que não existe risco, deve apresentá-las imediatamente.
Se não realizou, precisa explicar por que colocou a estrutura naquele local e quais providências adotará.
Porque saúde pública não comporta amadorismo.
Quando crianças, idosos e famílias inteiras são estimulados pelo próprio poder público a frequentar uma área de banho, a responsabilidade do Município é ainda maior.
FESTIVAL ESVAZIADO E UMA CIDADE CHEIA DE PROBLEMAS
O Festival do Mandim, que em outros tempos mobilizou Sena Madureira com muito mais intensidade, também parece distante do entusiasmo popular de antigas edições.
E talvez exista uma explicação que vá além da programação.
A população sabe onde o sapato aperta.
Quem enfrenta rua problemática, ramal precário, saneamento deficiente e serviços públicos insuficientes dificilmente se deixa convencer de que alguns dias de festa substituem administração eficiente.
Governar não é construir cenário.
Governar é resolver problemas.
QUANTO CUSTOU?
Para dimensionar a necessidade de transparência, basta lembrar que eventos públicos semelhantes no município movimentam cifras expressivas.
Por isso, O Seringal faz uma pergunta simples ao prefeito:
Quanto custou, do primeiro caminhão de areia ao último artista no palco, o Festival do Mandim 2026?
Não queremos estimativa.
Queremos números.
Quanto saiu dos cofres públicos?
Quem recebeu?
Quanto recebeu?
E mediante qual contrato?
E A VIGILÂNCIA SANITÁRIA?
Há ainda uma pergunta que talvez seja mais importante que todas as outras.
A área foi inspecionada antes de a população ser convidada para entrar no rio?
A Secretaria Municipal de Saúde tinha conhecimento do ponto mostrado no vídeo?
A Vigilância Sanitária realizou vistoria?
Houve coleta de água?
Existe laudo de balneabilidade?
Se existe, publique-se.
Se não existe, a Prefeitura terá uma explicação muito mais difícil para oferecer.
Porque, diante de uma possível fonte de contaminação próxima a uma área oficialmente preparada para banho, a omissão deixa de ser somente administrativa.
Torna-se uma preocupação concreta de saúde pública.
PRAIA PARA DOIS DIAS. SANEAMENTO PARA UMA VIDA.
Sena Madureira possui milhares de moradores na zona urbana.
Então fazemos uma pergunta que deveria estar sobre a mesa do prefeito antes mesmo de qualquer máquina começar a trabalhar na praia artificial:
Quantos moradores precisam de uma praia artificial durante um fim de semana e quantos precisam de saneamento básico durante os 365 dias do ano?
A resposta é óbvia.
A diferença é que saneamento fica enterrado.
Não rende palco.
Não aparece atrás de cantor.
Não produz fotografia bonita para rede social.
Mas evita doença.
Protege crianças.
Preserva o rio.
Melhora a qualidade de vida.
É justamente aí que se mede a diferença entre administrar uma cidade e administrar a própria imagem política.
O SERINGAL QUER RESPOSTAS
Por se tratar de fim de semana e não haver expediente administrativo regular, O Seringal não conseguiu obter da Prefeitura, até a publicação deste editorial, respostas para questões essenciais que serão formalmente apresentadas ao Município:
Qual foi o custo total do Festival do Mandim 2026? Quem foram as empresas, artistas e prestadores contratados e quanto recebeu cada um? J. Alves recebeu recursos públicos pela organização ou apresentação no evento? Houve análise da qualidade da água antes da abertura da praia? Qual órgão realizou essa análise? O que é o líquido escuro mostrado no vídeo chegando ao Rio Iaco? Existe lançamento de esgoto naquele ponto? Que providência emergencial foi adotada?
As respostas serão publicadas integralmente.
O espaço da Prefeitura está aberto.
Mas enquanto elas não chegam, permanece diante dos olhos da população uma imagem difícil de explicar:
uma prefeitura capaz de construir uma praia artificial ao lado de um problema que deveria ter resolvido primeiro.
A areia pode esconder muita coisa.
O palco pode fazer barulho.
A música pode durar até tarde.
Mas nenhum show consegue abafar o cheiro do abandono.

