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É crime contra o consumidor

Arroba bovina dispara no Acre, mas saída de gado sem recolhimento de imposto levanta suspeitas; Sefaz não esclarece

Boletim aponta valorização do boi gordo, crescimento dos abates e recorde nas exportações; movimentações entre propriedades registradas no mesmo CPF são questionadas por produtores

O preço da arroba bovina ganhou força no Acre e atingiu, em agosto, os maiores patamares do período analisado pela Federação da Agricultura. Depois de permanecer relativamente estável durante julho, a cotação do boi gordo acelerou no fim daquele mês, acompanhando a valorização registrada no mercado nacional. Os questionamentos abaixo não têm resposta fática da Secretaria de fazenda.

O movimento também encareceu os animais de reposição. Entre 8 de julho e 11 de agosto, aumentaram principalmente os preços do boi magro, da novilha e da vaca solteira. Na prática, o produtor recebe mais pelo animal pronto para o abate, mas também precisa pagar mais para recompor ou ampliar o rebanho.

A forte valorização ocorre em meio a outro fenômeno que desperta preocupação no setor: a expressiva quantidade de bovinos que deixa o Acre declarada como transferência entre propriedades pertencentes ao mesmo titular — operação que, segundo produtores, pode não gerar o mesmo recolhimento tributário de uma venda convencional.

Mais de 62% saíram para o mesmo proprietário

Em julho de 2026, deixaram o Acre 26.781 bovinos vivos. Desse total, 16.759 animais, equivalentes a 62,6%, foram movimentados para estabelecimentos vinculados ao mesmo proprietário. Outras 10.022 cabeças, ou 37,4%, tiveram como destino propriedades pertencentes a titulares diferentes.

A predominância das transferências para o mesmo proprietário levanta uma fortíssima suspeita no meio rural: compradores de fora poderiam estar adquirindo animais no Acre e registrando a movimentação como se o gado apenas estivesse sendo transferido entre propriedades do mesmo CPF.

O possível expediente é descrito por produtores como uma espécie de “sonegação disfarçada”. Em vez de registrar a compra e a venda entre pessoas diferentes, o animal sairia formalmente em nome do mesmo titular, reduzindo ou afastando a incidência tributária aplicável à operação comercial.

A proporção de 62,6%, isoladamente, não comprova a existência de fraude. Há transferências legítimas entre fazendas pertencentes ao mesmo produtor. O número elevado, entretanto, exige fiscalização rigorosa para verificar quem realmente criou e vendeu os animais, quem efetuou o pagamento e quem é o proprietário de fato do gado transportado.

Também cabe à Secretaria de Estado da Fazenda do Acre esclarecer quais mecanismos utiliza para cruzar notas fiscais, Guias de Trânsito Animal, cadastros de propriedades, movimentações bancárias e alterações de titularidade. A reportagem considera indispensável que a Sefaz se manifeste sobre as suspeitas e informe se existem auditorias ou fiscalizações voltadas para essas operações.

Valorização aumenta risco de oportunismo

Quanto mais valorizada estiver a arroba, maior será o interesse de compradores de outros estados pelo rebanho acreano. O problema aparece quando essa procura é acompanhada por mecanismos destinados a ocultar a verdadeira natureza comercial da movimentação.

A eventual irregularidade prejudica o Acre de duas maneiras: reduz a arrecadação de recursos que poderiam financiar serviços públicos e retira matéria-prima dos frigoríficos locais. Enquanto o comprador externo aproveita a alta do mercado, o estado pode ficar com o prejuízo tributário e econômico.

No acumulado de janeiro a julho de 2026, as saídas de bovinos vivos chegaram a 218.488 cabeças, crescimento de 4,5% diante das 209.029 registradas no mesmo período de 2025. O movimento recente, entretanto, mostra desaceleração: depois de quedas sucessivas a partir de abril, as saídas recuaram 28,11% em julho.

Indústria local supera 400 mil abates

O setor frigorífico acreano também apresenta expansão. Nos sete primeiros meses de 2026, foram abatidos 400.009 bovinos, crescimento de 5,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Entre junho e julho, o volume avançou 13,4%.

Em julho, as fêmeas representaram 57,5% dos animais abatidos, contra 42,5% de machos. Houve predominância dos bovinos com mais de 36 meses, responsáveis por 52,7% dos abates. Os animais entre 25 e 36 meses responderam por 38,5%.

A elevada participação de fêmeas e animais mais velhos também merece acompanhamento, porque a redução das matrizes pode afetar a produção de bezerros e a oferta futura de gado.

Exportações crescem 72% em receita

Entre janeiro e julho de 2026, o Acre exportou 4.041,4 toneladas de carne bovina, movimentando US$ 21,5 milhões. No mesmo período de 2025, haviam sido embarcadas 2.805,2 toneladas, com receita de US$ 12,5 milhões.

O avanço foi de aproximadamente 44% no volume e 72% no faturamento. O resultado evidencia a capacidade da indústria acreana de agregar valor à produção e conquistar espaço no mercado internacional.

O estado começou o período com mais de 5,1 milhões de bovinos e registrou desfrute total de 618.497 cabeças, considerando conjuntamente os abates e as saídas de animais vivos.

Os indicadores confirmam o momento de forte valorização da pecuária acreana. A arroba subiu, os abates cresceram e as exportações dispararam. Mas a prosperidade do setor precisa vir acompanhada de transparência. Diante de 16.759 animais retirados do Acre, em apenas um mês, como transferências para o mesmo proprietário, o silêncio dos órgãos fiscalizadores apenas amplia as dúvidas.

O dado não permite condenações antecipadas, mas é suficientemente expressivo para exigir explicações, auditoria e fiscalização. Se as operações forem regulares, cabe ao Estado demonstrá-lo. Caso sejam encontradas vendas disfarçadas de simples transferências, será necessário identificar os responsáveis, cobrar os tributos devidos e impedir que a valorização da arroba se transforme em oportunidade para evasão fiscal.

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REDAÇÃO

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