Uma ofensiva judicial de proporções incomuns começa a preocupar empresários e profissionais da comunicação no Acre. No centro dela está Vladimir Joelsas Timerman, fundador e gestor da Esh Capital, conhecido nacionalmente pelo estilo agressivo adotado em disputas no mercado financeiro.
Segundo levantamento obtido pelo O Seringal, pelo menos 27 veículos de comunicação, entre portais, jornais e emissoras de TV, estariam sendo processados, sendo ao menos nove no Acre. Entre os atingidos estão também jornalistas acreanos que vêm sendo citados desde o ano passado.
Parte dessas ações tramitaria sob sigilo, dificultando o acompanhamento público das acusações, dos pedidos formulados e principalmente a compreensão da dimensão da ofensiva.
O cenário levanta uma questão inevitável: trata-se simplesmente do legítimo direito de recorrer à Justiça ou de uma estratégia judicial com potencial intimidatório contra quem publica informações sobre Timerman e a Esh Capital?
Os jornalistas acreanos Edvaldo Souza e Assem Neto, alvos da investida de Vladimir, buscam o detalhamento das acusações. Edvaldo conseguiu arquivar a ação após ser citado no ano passado, mas Vladimir se articulou para reabrir o caso, sob a acusação de uso indevido de imagem e violação à Lei de Direitos Autorais. Nem mesmo as partes acessam ao processo, sugerindo haver manobras e constrangimento ilegal deliberados por parte de Vladimir. No caso de Assem Neto, a acusação é contra o portal ACjornal, que não pertence ao jornalista desde 2018.
Personagem conhecido dos tribunais
Timerman não é desconhecido do noticiário nacional.
Em abril deste ano, a Folha de S.Paulo o chamou de “mais ruidoso gestor do país” e informou que ele era alvo de inúmeros processos, havia sido condenado em dois e obtido vitória em outros 14. A reportagem acrescentou que a Esh, que chegou a administrar quase R$ 1 bilhão, possuía então apenas R$ 12,5 milhões sob gestão.
Em agosto, o Metrópoles foi ainda mais contundente: informou que Vladimir acumulava mais de 40 processos criminais relacionados à sua atuação no mercado financeiro e a abordagens classificadas como truculentas por seus adversários. O próprio Timerman declarou à reportagem: “Sou alvo de 40 processos criminais”.
Em maio, o Seu Dinheiro informou que o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve, em segunda instância, uma condenação de Timerman pelo crime de perseguição (stalking) contra o empresário Nelson Tanure. O gestor contestou a decisão e informou que continuaria recorrendo.
Acusações pesadas no mercado
A lista de confrontos envolvendo Timerman e a Esh é extensa.
O material analisado pelo O Seringal reúne disputas envolvendo ex-sócios, investidores e gigantes como BTG Pactual, Gol/Smiles e Itaú, além de outros grupos empresariais. São acusações feitas pelas respectivas partes e que, evidentemente, não podem ser tratadas indistintamente como condenações definitivas.
Em outro episódio, a Associação Brasileira de Investidores (Abradin) ajuizou ação contra Timerman e a Esh acusando-os de manipulação de preços, criação de condições artificiais de demanda e prejuízos a investidores. São acusações da entidade submetidas ao Judiciário.
Documentos oficiais da CVM também registraram duríssimas acusações da Terra Santa contra a Esh. A companhia afirmou ter sido alvo de inúmeras reclamações, notificações e procedimentos administrativos, judiciais e arbitrais promovidos pela gestora, classificando as investidas como repetitivas e infundadas. Novamente, trata-se da posição apresentada pela empresa à CVM.
Agora, jornalistas estão na mira
É justamente esse histórico que torna preocupante a chegada da batalha aos meios de comunicação.
Se confirmada integralmente a existência de processos contra pelo menos 27 veículos, nove somente no Acre, já não se trata de um conflito isolado com uma reportagem ou jornalista. Estamos diante de uma ofensiva judicial de dimensão nacional que precisa ser esclarecida.
O segredo de Justiça dificulta que a sociedade saiba exatamente o que está sendo pedido contra tantos órgãos de imprensa e quais publicações originaram as ações.
Processar é direito. Defender a honra também.
Mas quando um personagem que acumula décadas de conflitos societários, acusações, processos e condenações passa a mover ações contra dezenas de veículos e jornalistas, é igualmente legítimo perguntar:
é defesa de direitos ou uma estratégia capaz de intimidar a imprensa?
A resposta deverá vir dos processos.
Até lá, uma coisa é certa: a imprensa não pode ser impedida de investigar, questionar e publicar fatos de interesse público simplesmente pelo temor de enfrentar uma avalanche de ações judiciais.
E se existem 27 veículos na mira, saber quem são eles, quais acusações enfrentam e por que foram processados deixou de ser apenas interesse dos réus.
Virou notícia.

