A crônica desta semana (sempre nas manhã de sábado), assinada pelo delegado de Polícia Civil Emylson Farias, colaborador de O Seringal, mergulha nos bastidores de uma investigação histórica, que corrigiu uma grave injustiça e salvou um inocente da prisão ao revelar o verdadeiro autor de um dos crimes mais brutais já registrados no Acre.
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Há quase 20 anos, o assassinato de Joseh Alexandre, o carismático secretário de Políticas Públicas da Central Única dos Trabalhadores (CUT-AC), estarreceu a sociedade acreana. A vítima foi morta a facadas dentro de casa, com requintes de extrema crueldade, ganância e uma perturbadora carga de ódio e homofobia.
No início das apurações, um inocente chegou a ser preso e apontado como assassino. A verdade, porém, começou a surgir graças à persistência dos investigadores sob o comando de Emylson Farias, que não conhecia a vítima, mas, a exemplo de tantos sinistros para solucionar, aquele, em especial, lhe prendeu ao ponto de passar noites em claro. Quando veio a constatação decisiva, por uma médica-legista ouvida por Emylson Farias. A partir daquele detalhe técnico, a versão inicial desmoronou e a Polícia Civil chegou ao verdadeiro criminoso: Gabrial Santos, o filho da empregada da vítima, que seria condenado a 47 anos, e Daniel Dantas, comparsa, a 45 anos de cadeia em regime fechado.
Ora, o suspeito preso, amigo de Alexandre, foi visitá-lo. Eram 23 horas daquela terça-feira. Saiu desesperado da casa ao ver o corpo do amigo retalhado, coberto de sangue. O gesto logo foi tratado como uma fuga e o rapaz imediatamente apontado como autor do bárbaro crime – a partir do depoimento de uma testemunha A legista disse ao delegado que o estômago da vítima parou de funcionar às 18h, cinco horas antes, logo em seguida Alexandre comer um sanduíche. O trio, verdadeiros assassinos, já o aguardavam dentro da casa para promover o ato sangrento.
O filho da empregada confessou uma sequência estarrecedora de atos. Matou José Alexandre a facadas para roubar, deixou a cena do crime, foi lanchar, jogou a arma nas águas do Rio Acre e depois (pasmem) retornou ao imóvel para amordaçar e amarrar o corpo. Ainda tentou apagar os vestígios usando água sanitária e sabão em pó. os objetos subtraídos, já em poder do delegado, apressou o pedido de soltura do inocente, aceito pela então juíza Denise Bonfim.
Confissão esta ocorrida diante do olhar devastado do próprio pai do assassino, um trabalhador humilde, roçador de quintais, que também prestava serviços à vítima. Confrontado com provas irrefutáveis, ele pronunciou uma frase dolorosa: “eu acreditava ter criado um filho, mas descobri que criei um monstro”. Sanguinário, o assassino desprezou até o abraço da mãe, empurrando-a.
O desfecho da investigação impediu que um inocente pagasse por um crime que não cometeu e levou o verdadeiro assassino à Justiça. O trabalho de Emylson Farias recebeu reconhecimento público e contribuiu para que ele fosse posteriormente nomeado diretor-geral da Polícia Civil pelo então governador Binho Marques.
Uma nomeação sem pompas, pelo mérito do policial, que o próprio governador confessou já conhecer.
Não há informações atualizadas sobre a situação prisional do condenado — se permanece encarcerado ou já está em liberdade. Mas a crueldade daquele crime ainda ecoa na memória do Acre.
É esse episódio, contado por quem participou diretamente da investigação, que Emylson Farias revela na crônica desta semana. Um relato sobre violência, preconceito, erro, persistência policial e a busca incansável pela verdade.
Vale muito a pena a leitura.

