
A grandiosidade da carreata, o aparato visual, a presença de dezenas de autoridades e a adesão de uma parcela expressiva da classe política acreana levantaram questionamentos inevitáveis sobre a igualdade de condições na disputa eleitoral. Quando um único pré-candidato consegue reunir, em um mesmo ato, cerca de uma dúzia de deputados estaduais, vereadores, secretários de Estado e outras lideranças governistas, a discussão deixa de ser apenas política e passa a interessar também às instituições responsáveis pela fiscalização eleitoral.
Campeã de votos na última eleição, no top 1 da produtividade legislativa e sem qualquer mácula em seu mandato, a deputada federal Socorro Neri, ao ser questionada pelo jornalista Luciano Tavares sobre o evento, anunciou que irá palestrar sobre “Democracia em Transe”, nesta sexta-feira, no anfiteatro da Universidade Federal do Acre. Obviamente que a palestra não foi motivada por esse assunto isoladamente, mas a parlamentar afirmou enxergar uma disputa profundamente desigual. Segundo ela, há elementos que suscitam dúvidas sobre eventual abuso de poder econômico e sobre o uso da máquina pública em favor de um projeto político específico, observações que, naturalmente, demandam apuração pelos órgãos competentes caso existam indícios suficientes.
A parlamentar também manifestou estranheza diante da rápida migração de lideranças políticas que, durante mais de sete anos, integraram a base de sustentação do governo no Congresso Nacional e agora se alinham ao projeto de Fábio de Rueda. Para ela, trata-se de um movimento político cuja dimensão desperta questionamentos sobre os meios empregados para construir essa nova correlação de forças.
Nesse contexto, ganhou destaque o papel atribuído ao secretário da Casa Civil, Jonathan Donadoni, apontado por aliados e adversários como um dos principais articuladores políticos do governo. A eventual participação de agentes públicos em articulações eleitorais futuras, entretanto, deve sempre observar os limites estabelecidos pela legislação, preservando a separação entre administração pública e interesses eleitorais. A troco de quê? Por quais meios?
Também é impossível ignorar outro aspecto da discussão: o elevado investimento percebido na construção da imagem do pré-candidato. A avaliação recorrente nos bastidores é de que a estrutura apresentada supera, em muito, os padrões habituais de uma pré-campanha para deputado federal. Como lembram analistas políticos, Fábio de Rueda disputou eleições anteriormente sem alcançar êxito, apesar de uma campanha considerada financeiramente robusta. A impressão transmitida agora é de que a estratégia foi intensificada.
É importante destacar que campanhas caras não constituem, por si só, irregularidade. O financiamento eleitoral é permitido dentro dos limites legais e sob fiscalização da Justiça Eleitoral. O problema surge quando o poder econômico ou eventual utilização da estrutura pública cria uma assimetria capaz de comprometer a isonomia entre os concorrentes, princípio fundamental da democracia.
A democracia não se fortalece apenas pelo voto. Ela depende da confiança de que todos os candidatos disputam em condições minimamente equilibradas. Quando uma pré-campanha apresenta demonstrações extraordinárias de força política, financeira e institucional, é natural que surjam questionamentos públicos. Ignorá-los seria um desserviço ao processo democrático.
Nota da Redação: A Justiça Eleitoral e os órgãos de controle devem acompanhar atentamente o desenvolvimento das pré-campanhas no Acre. A fiscalização preventiva é essencial para assegurar que os limites legais sejam respeitados e que qualquer eventual irregularidade seja apurada com imparcialidade, preservando a igualdade de oportunidades entre todos os participantes da disputa eleitoral.


