O que deveria ser um período de preservação da vida no Rio Purus está se transformando em um cenário de desperdício, irresponsabilidade e possível crime ambiental em Sena Madureira. Em plena piracema, quando os peixes sobem o rio para se reproduzir e garantir o repovoamento natural das águas, toneladas de mandis juvenis estariam sendo capturadas por redes de malha fina e devolvidas mortas ao rio por não possuírem valor comercial.
A denúncia foi feita por ribeirinhos ouvidos pela reportagem de OSeringal, que relatam um verdadeiro massacre da espécie diante da ausência de fiscalização dos órgãos ambientais.
O paradoxo revolta quem vive às margens do Purus: enquanto há fartura de mandis subindo o rio nesta época do ano, grande parte deles sequer chega ao consumidor. Os peixes menores são descartados sem qualquer aproveitamento, comprometendo o futuro da pesca e colocando em risco um dos maiores patrimônios naturais da região.
Segundo os relatos, pescadores profissionais e até moradores da cidade passaram a aproveitar a concentração de peixes próxima ao porto de Sena Madureira para realizar pescarias intensivas, principalmente aos fins de semana. Em muitos casos, as capturas seriam feitas com redes proibidas, capazes de reter indiscriminadamente peixes adultos e filhotes.
O ribeirinho José Afreo Barbosa denuncia que praticamente não existe fiscalização.
“Não está tendo fiscalização. Estão pegando de tudo. A rede vem carregada de peixe grande e pequeno. O pequeno não serve para vender e volta para o rio já morto.”
As cenas, segundo moradores, chegam a ser exibidas nas redes sociais como motivo de orgulho. Canoa após canoa aparece lotada de mandis, inclusive exemplares visivelmente abaixo do tamanho mínimo permitido por lei.
Nas imagens obtidas pela reportagem é possível identificar diversos peixes com menos de 15 centímetros, tamanho inferior ao estabelecido para captura da espécie Pimelodus blochii.
O problema, afirmam os denunciantes, não é apenas a pesca durante a piracema, mas principalmente a utilização de redes de malha fina, proibidas justamente por capturarem indiscriminadamente peixes reprodutores e juvenis.
A prática pode violar diversas normas ambientais.
Durante o período de defeso existem restrições específicas ao uso de determinados petrechos de pesca, especialmente redes de malha fina. Além disso, o mandi somente pode ser capturado quando possui pelo menos 15 centímetros de comprimento. Capturar exemplares menores caracteriza retirada de peixes juvenis, impedindo que eles atinjam a idade reprodutiva.
Outro agravante denunciado pelos ribeirinhos é o descarte dos peixes mortos no próprio rio.
“Passam a rede, tiram o que vende e jogam o resto morto na água. Ano que vem não vai existir mandi graúdo porque estão matando todos os novinhos agora”, lamenta um morador da região da Cachoeirinha, que pediu para não ser identificado por medo de represálias.
Além de representar desperdício de alimento, o descarte de grandes quantidades de peixes mortos pode provocar sérios impactos ambientais. A decomposição da matéria orgânica reduz a quantidade de oxigênio na água, favorecendo novas mortandades de peixes e comprometendo todo o equilíbrio do ecossistema aquático.
“O efeito é em cascata. Mata o peixe, degrada o rio e compromete a atividade dos próprios pescadores no futuro”, explica o biólogo Marcos Valentin, da Universidade Federal do Acre.
Os relatos também coincidem com alertas técnicos já divulgados anteriormente. Estudos apontam redução significativa dos estoques de mandi no Médio Purus em razão da captura de exemplares juvenis. Como a espécie leva cerca de dois anos para atingir a fase reprodutiva, eliminar os filhotes hoje significa reduzir drasticamente a população nos próximos anos.
Enquanto isso, a fiscalização praticamente inexiste.
A responsabilidade pelo combate à pesca predatória é dos órgãos ambientais competentes. Entretanto, um agente ouvido pela reportagem afirma que a estrutura disponível é insuficiente para monitorar milhares de quilômetros de rios durante o período mais crítico da piracema.
Sem fiscalização efetiva, cresce entre os moradores a sensação de impunidade.
Também chama atenção outro paradoxo. Apesar da grande quantidade de mandis capturados, o preço do peixe continua elevado na Feira Nova de Sena Madureira. Nesta semana, o quilo do mandi graúdo chegou a R$ 18.
Para os ribeirinhos, isso demonstra que a pesca predatória não beneficia a população. Ao contrário: elimina milhares de peixes que sequer chegam ao mercado, reduz os estoques naturais e ameaça encarecer ainda mais o pescado nos próximos anos.
Até o fechamento desta reportagem, a Colônia de Pescadores de Sena Madureira não havia se manifestado sobre as denúncias.
A reportagem de OSeringal solicita posicionamento do IMAC, do IBAMA e do Ministério Público do Acre sobre as denúncias de captura de peixes juvenis, uso de redes proibidas, descarte de pescado morto e a falta de fiscalização no Rio Purus durante a piracema.
A pena para pesca predatória pode incluir detenção, multas elevadas e apreensão de embarcações, motores e equipamentos utilizados na infração. Se o cenário denunciado pelos ribeirinhos continuar, o maior prejuízo será para o próprio Rio Purus e para as futuras gerações, que poderão assistir ao desaparecimento de uma espécie que sempre simbolizou a fartura de Sena Madureira.
Prefiro esta resposta
ChatGPT
Resposta 2
Fartura que vira crime: toneladas de mandis juvenis são exterminadas no Rio Purus sob olhar da fiscalização ausente
A fartura de mandis que todos os anos transforma Sena Madureira em referência na pesca do Rio Purus está se convertendo em um dos maiores crimes ambientais já denunciados por moradores da região. Em plena piracema — período em que os peixes sobem o rio para se reproduzir e garantir o repovoamento natural das águas — toneladas de mandis juvenis estariam sendo capturadas e descartadas mortas, vítimas da pesca predatória e da completa ausência de fiscalização.
A reportagem de O Seringal recebeu relatos, imagens e denúncias de ribeirinhos que descrevem um verdadeiro massacre ecológico às margens do Purus. Segundo os moradores, pescadores profissionais e pessoas da própria cidade passaram a aproveitar a concentração dos peixes durante a piracema para capturar grandes quantidades da espécie, utilizando redes de malha fina, proibidas pela legislação ambiental.
O resultado é um cenário considerado revoltante: canoas retornam carregadas de mandis, enquanto milhares de exemplares pequenos, sem valor comercial, são simplesmente devolvidos mortos ao rio.
“Passam a rede e vem tudo. O mandi grande que vende e o pequeno que não serve para o comércio. O miúdo é jogado fora já morto, como se fosse lixo”, denuncia o ribeirinho José Afreo Barbosa.
Segundo ele, o problema se agravou porque praticamente não há fiscalização dos órgãos responsáveis justamente no período mais sensível para a reprodução da espécie.
Outro morador da região da Cachoeirinha, que pediu para não ser identificado por medo de represálias, afirma que a prática ocorre diariamente.
“Eles pouco estão ligando para a lei. Sabem que ninguém fiscaliza. O peixe pequeno morre e volta para o rio. Ano que vem não vai existir mandi grande porque estão acabando com todos os filhotes agora.”
Um paradoxo às margens do Purus
O cenário chama atenção pelo contraste.
Enquanto Sena Madureira ostenta a fama de possuir uma das maiores farturas de mandi do Acre nesta época do ano, centenas ou até milhares de peixes juvenis estão sendo desperdiçados diariamente.
Nas redes sociais, pescadores exibem embarcações abarrotadas de peixes como troféu. Em diversas imagens é possível identificar exemplares com menos de 15 centímetros, tamanho inferior ao permitido para captura.
Especialistas alertam que esses peixes sequer chegaram à idade reprodutiva.
A consequência é previsível: comprometer o estoque pesqueiro dos próximos anos.
Três infrações ambientais
As denúncias apontam para o descumprimento simultâneo de diversas normas ambientais.
Entre elas:
utilização de redes proibidas durante o período do defeso;
captura de mandis abaixo do tamanho mínimo permitido;
descarte de grandes quantidades de peixes mortos no próprio rio.
O mandi (Pimelodus blochii) somente pode ser capturado com 15 centímetros ou mais, conforme a Instrução Normativa IBAMA nº 26/2009.
Já a pesca durante a piracema possui restrições severas ao uso de determinados petrechos, justamente para evitar a captura indiscriminada de peixes adultos e juvenis.
Além disso, a Lei de Crimes Ambientais prevê multas que variam de R$ 700 até R$ 100 mil, acrescidas de R$ 20 por quilo de pescado irregular, além da possibilidade de detenção, apreensão de embarcações e equipamentos.
O rio também adoece
O impacto não fica restrito à perda dos peixes.
Segundo especialistas, milhares de animais mortos devolvidos às águas provocam decomposição, aumento da matéria orgânica e redução do oxigênio disponível, afetando outras espécies e desequilibrando todo o ecossistema aquático.
“É um efeito cascata. Mata o peixe, mata o rio e compromete o futuro da própria pesca”, explica o biólogo Marcos Valentin, da Universidade Federal do Acre.
O alerta ganha ainda mais peso porque estudos já indicaram redução significativa dos estoques da espécie no médio Purus nos últimos anos, justamente em razão da captura de exemplares juvenis.
Como o mandi leva cerca de dois anos para atingir a maturidade reprodutiva, eliminar os filhotes significa interromper o ciclo natural de renovação da população.
Fiscalização insuficiente
Embora a fiscalização da atividade pesqueira seja atribuição de órgãos ambientais como IMAC e IBAMA, moradores afirmam que a presença das equipes praticamente inexiste nas áreas onde ocorre a pesca predatória.
Um agente ambiental ouvido pela reportagem reconheceu, sob condição de anonimato, a limitação operacional.
“Temos apenas uma lancha para fiscalizar centenas de quilômetros de rio justamente na época mais crítica. É impossível estar em todos os locais.”
Enquanto isso, vídeos e fotografias continuam circulando livremente nas redes sociais, expondo embarcações carregadas de peixes e reforçando a sensação de impunidade.
Até o fechamento desta reportagem, a Colônia de Pescadores de Sena Madureira não havia se manifestado sobre as denúncias.
Mercado sente os reflexos
O paradoxo também aparece nas bancas da cidade.
Mesmo em plena temporada do mandi, o quilo do peixe graúdo chegou a aproximadamente R$ 18 na Feira Nova de Sena Madureira.
Moradores alertam que, se a mortandade de juvenis continuar sem controle, o cenário tende a se agravar: o peixe ficará cada vez mais raro, mais caro e poderá desaparecer da mesa das famílias do Vale do Purus nos próximos anos.
A reportagem de O Seringal continuará acompanhando o caso e solicita que moradores encaminhem imagens, vídeos ou informações sobre pesca predatória às autoridades ambientais competentes para que os fatos sejam apurados e os responsáveis, identificados.

