A presença de equipes da Usina Hidrelétrica de Jirau em Fortaleza do Abunã, distrito de Porto Velho (RO), realizando um amplo cadastro socioeconômico e fundiário em mais de 300 propriedades, voltou a despertar apreensão entre moradores da região e proprietários de imóveis do Acre e de Rondônia. O receio é de que os levantamentos estejam relacionados a estudos para uma eventual elevação do nível do reservatório, cenário que poderia provocar o alagamento de extensas áreas da comunidade.
Até o momento, a concessionária não confirmou qualquer projeto de expansão da usina ou aumento da cota do reservatório. Ainda assim, o trabalho de campo mobiliza moradores diante da possibilidade de futuras decisões envolvendo a área.
Quinze profissionais percorrem residências, estabelecimentos comerciais e propriedades rurais realizando entrevistas, levantamento da situação fundiária e avaliação venal de casas, comércios e demais benfeitorias. Durante as visitas, também são coletadas informações sobre a composição familiar, o tempo de permanência na localidade e as atividades econômicas desenvolvidas por cada núcleo familiar. “Me chamaram, então vou lá. As informações ainda são poucas, mas a minha propriedade está listada entre as que seriam indenizadas”, disse um policial aposentado que pediu anonimato. Ele mora em Rio Branco e se deslocou na manhã desta sexta-feira.
O chamamento feito pela empresa alcança não apenas os moradores de Fortaleza do Abunã, mas também proprietários que vivem em municípios do Acre e de Rondônia, para que acompanhem o cadastramento de seus imóveis e forneçam as informações necessárias ao levantamento.
A comunidade promove muitos burburinhos, aumentando a preocupação de que um eventual aumento do nível das águas possa inundar praticamente toda a área atualmente ocupada, afetando residências, comércios, áreas produtivas e importantes trechos da infraestrutura regional. Entre as hipóteses levantadas por moradores está a possibilidade de impactos que alcancem, inclusive, as duas margens da BR-364 na região do Abunã. Entretanto, não há confirmação oficial de que esse cenário faça parte de qualquer projeto em andamento.
O cadastramento foi intensificado após decisões judiciais e determinações da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), que determinaram a realização de estudos mais aprofundados para garantir a segurança das comunidades potencialmente afetadas pelos empreendimentos hidrelétricos e subsidiar eventuais processos de indenização ou realocação, caso venham a ser necessários.
As informações obtidas durante o levantamento formarão um banco de dados sobre a realidade socioeconômica e patrimonial da população, servindo como base para futuras análises técnicas e para a definição de medidas que eventualmente venham a ser adotadas.
Fortaleza do Abunã está localizada a cerca de 230 quilômetros de Porto Velho, às margens do rio Abunã, na divisa entre Rondônia e Acre. O distrito é conhecido pelas praias fluviais de águas mornas que surgem durante a vazante do rio e recebe milhares de visitantes todos os anos, movimentando o turismo e a economia local.
Enquanto o cadastro avança, moradores acompanham o trabalho com expectativa e preocupação. Sem uma manifestação oficial da concessionária sobre uma eventual ampliação do empreendimento, a comunidade aguarda esclarecimentos sobre a finalidade dos levantamentos e os possíveis desdobramentos para uma das regiões mais estratégicas da fronteira entre Acre e Rondônia

