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Um homem sem vergonha !!

Homicídio, falsificação de documento público, falsidade ideológica, roubo e outras fraudes; a ficha criminal de João Valbecir, apontado pela polícia como “estelionatário contumaz”

A trajetória policial de João Valbecir Alves Barbosa, conhecido como “Jhony”, hoje com 57 anos, não começou com pequenos golpes ou documentos falsificados. Os registros judiciais apresentados à reportagem remontam a um homicídio cometido há quase 30 anos e avançam por condenações, falsidade documental, estelionatos, porte ilegal de arma e episódios em que ele teria se apresentado falsamente como agente do Estado. Confira nos links abaixo os crimes mais recentes.

Mais recentemente, João Valbecir voltou às páginas policiais acusado de enganar uma idosa de 75 anos. O caso reacende uma pergunta incômoda: como um homem com histórico tão extenso, já condenado e preso diversas vezes, conseguiu permanecer em circulação e, segundo a Polícia Civil, continuar fazendo vítimas?

Um homicídio anunciado

O episódio mais grave da ficha criminal ocorreu em dezembro de 1996, no bairro Vitória, em Rio Branco. A vítima, Zenildo Ventura, foi esfaqueada até a morte dentro de um bar.

Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público, João Valbecir teria afirmado, antes do crime, que mataria uma pessoa. Momentos antes de desferir o golpe fatal no abdômen de Zenildo, ainda teria feito uma pergunta perturbadora:

— Você tem certeza de que não me conhece?

Em seguida, atacou a vítima.

O caso foi levado ao Tribunal do Júri. A sentença, assinada pelo então juiz-presidente Marco Antônio Nunes Barbosa, condenou João Valbecir a 19 anos e oito meses de prisão, em regime fechado.

Os registros apresentados à reportagem também apontam que, após o homicídio, ele teria usado uma pistola para assaltar uma mercearia e roubar uma pequena quantia em dinheiro.

Documento falso e “desejo de ganho fácil”

Os problemas com a Justiça não terminaram com a condenação pelo homicídio. Em fevereiro de 2012, João Valbecir foi novamente condenado, desta vez a cinco anos e quatro meses de reclusão, por falsificar a carteira de identidade de outro homem. Na sentença, o juiz Cloves Augusto Cabral, da 4ª Vara Criminal de Rio Branco, foi direto ao analisar a motivação atribuída ao réu: “o desejo de ganho fácil em detrimento do patrimônio alheio”.

A frase escrita pelo magistrado há mais de uma década parece antecipar a sequência de acusações que voltaria a colocar João Valbecir no centro de investigações por fraudes.

Falso perito criminal

Em 22 de junho de 2021, João Valbecir voltou a ser preso em Rio Branco. Na ocasião, foi localizado por policiais militares do 3º Batalhão no bairro Montanhês.

Ele era tratado como foragido e possuía dois mandados de prisão em aberto, relacionados aos crimes de estelionato e porte ilegal de arma de fogo.

Durante a abordagem, usava uma camisa preta estilizada com a inscrição “Perito Criminal” e o símbolo da Polícia Civil. Conforme os relatos divulgados na época, tentou convencer os próprios policiais de que realmente exercia a função pública.

A encenação não funcionou.

Além de se passar por perito, ele também foi acusado de falsificar atestados médicos. O episódio ganhou ampla repercussão na imprensa acreana. A prisão de 2021 foi registrada pela imprensa local.

A idosa de 75 anos e os móveis comprados sem autorização

O capítulo mais recente envolve uma idosa de 75 anos. Segundo a investigação da Polícia Civil, João Valbecir teria conquistado a confiança da vítima e utilizado os dados dela para retirar móveis de uma loja, sem autorização. Morou de aluguel num prédio da idosa, não pagou pela moradia, se apresentou como advogado, sendo desmentido por não possuir registro em nenhuma seccional do país, e levou a vítima a acreditar até em audiências que seriam realizadas aos sábados. Valbecir se passou por membro do Tribunal Arbitral de São Paulo, que teria sede em Ribeirão Preto, mas sem qualquer referência na região. A idosa, atormentada com a sequência de crimes contra ela, apresentou á polícia cópia de uma negativação da Serasa, promovida pelo dito tribunal, sendo que ela jamais ouviu falar na instituição (se é que existe). A suspeita da polícia é que Valbecir tenha utilizado a procuração da mulher para promover negócios em nome dela, gerando débitos que a idosa desconhece. A mesma procuração, cancelada pelos filhos da idosa, teria sido usada para a retirada de móveis nas Lojas Gazin.

Em depoimento, a idosa afirmou ter sido ludibriada. Ela pediu a apreensão e a devolução dos bens retirados em seu nome e aguarda a análise de uma medida protetiva, providência também já solicitada pela autoridade policial responsável pelo inquérito.

O delegado Karlesso Nespoli, que ouviu a vítima e familiares, definiu João Valbecir como um “estelionatário contumaz” — expressão usada para indicar alguém reiteradamente envolvido na prática desse tipo de crime.

Após a prisão e a audiência de custódia, João Valbecir foi colocado em liberdade mediante monitoramento eletrônico. Desde então, passou a usar tornozeleira.

Uma ficha que desafia o sistema

Não se trata, portanto, de um homem que apareceu ocasionalmente em uma delegacia. Os registros apresentados revelam uma trajetória que atravessa décadas: homicídio, roubo, falsificação de documento, estelionato, porte ilegal de arma, falsa identidade profissional e, agora, uma investigação envolvendo uma idosa. Mais recentemente, João Valbecir surgiu numa live, opinando sobre o “descontrole emocional” de um menor que invadiu e matou três educadoras no Colégio São José, como se tivesse conhecimento científico para tal, buscando notoriedade ante ao episódio fatídico que estarreceu o país.

Também nas redes sociais, ele acusa jornalista de estar sendo procurado pela justiça, fato desmentido pela central nacional de mandatos de prisão. E acusa repórteres por “uso indevido” de sua imagem ao noticiarem suas reiteradas prisões, dizendo-se “constrangido”.

“Um absurdo alguém que foi preso várias vezes por um paiol de crimes, tem uma ficha criminal extensa, e vem argumentar que a imprensa usou indevidamente a sua imagem. Ora, todos os dias criminosos são presos, com robustas provas de seus delitos reunidas pela polícia que apura, o MP que denuncia e a justiça que manda prender. O papel da mídia é exatamente esse: noticiar fatos concretos, e alertar a sociedade sobre gente mal intencionada como esse senhor. Faço minhas as palavras de um advogado com o qual conversei neste domingo sobre a rotina de crimes do senhor João: “esse cidadão está no esgoto. Até o laudo que ele apresentou em juízo se dizendo paciente cardíaco (para se livrar do presídio) está sob suspeita. Enganou gente comum, enganou até delegado. Talvez nem valha a pena perder tempo com alguém que não tem nada a oferecer, a não ser boas pautas policiais para jornalistas”, revelou o repórter Assem Neto, por acaso filho da última idosa enganada por João Valbecir. Apesar do aconselhamento do advogado, o jornalista decidiu ir adiante numa ação protocolada nesta semana, em que pede enquadramento criminal de João Valbecir e reparação cível por injúria e crime de ódio.  O repórter não quis comentar o andamento da ação em que sua mãe é vítima, mas esclareceu que as provas (documentos e testemunhas) são irrefutáveis, e que o acusado já virou réu e a família aguarda a decisão do juiz sobre a reparação de danos (morais e financeiros). O fato de a vítima ser idosa é agravante na dosimetria de penas, especialmente quando o juiz é convencido sobre a premeditação de delitos com intenção de subtrair vantagem financeira.

As condenações anteriores são fatos documentados, que obrigam a imprensa ao questionamento público sobre a capacidade do sistema penal de fiscalizar reincidentes e proteger pessoas vulneráveis.

Quantas prisões, mandados e condenações são necessárias para impedir que alguém apontado pela própria polícia como “estelionatário contumaz” volte a conquistar a confiança de uma nova vítima?

A tornozeleira registra deslocamentos. Não identifica mentiras, não impede aproximações e tampouco devolve automaticamente o patrimônio retirado de uma vítima. Sem fiscalização efetiva, investigação rápida e resposta judicial proporcional ao risco, o equipamento pode acabar funcionando apenas como testemunha eletrônica da reincidência.

A sociedade tem o direito de conhecer o histórico criminal de um homem que não se envergonha de mostrar a cara na rua, todo dia – a mesma cara estampada em manchetes vexatórias carregadas de provas sobre sua índole duvidosa.

Afinal, quando um personagem conhecido há décadas pelas polícias e pelos tribunais reaparece acusado de enganar uma mulher de 75 anos, o fracasso já não pode ser atribuído apenas à astúcia do suspeito.

É também o retrato de um sistema que o prendeu repetidamente, mas aparentemente não conseguiu impedir que outras pessoas fossem colocadas em risco.

Até quando?

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REDAÇÃO

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