Há decisões institucionais que, em vez de produzir reconhecimento, produzem perplexidade. E esta é uma delas.
O Portal O Seringal revela agora a concessão de uma Láurea de Agradecimento ao advogado Keldheky Maia da Silva, homenagem datada de 30 de dezembro do ano passado e que, até então, permanecia praticamente escondida nos anais da OAB Acre. O documento é ainda mais desconcertante quando confrontado com o momento em que foi concedido: menos de seis meses depois da tragédia que resultou na morte da servidora do Tribunal de Justiça do Acre, Juliana Chaar.
A pergunta inevitável é: quais foram os critérios adotados pela presidência e pela vice-presidência da OAB-AC para considerar Keldheky digno de uma honraria que o descreve como profissional de “trajetória admirável”, alguém que teria dedicado “amor à advocacia”?
Não se trata aqui de antecipar julgamento criminal, tarefa que pertence à Justiça. Trata-se de questionar uma decisão institucional e seus fundamentos.
Naquele momento, o advogado já estava diretamente ligado, segundo os fatos investigados no processo, à violenta sequência de acontecimentos ocorrida naquela madrugada. Imagens e relatos que integram o caso registraram uma briga generalizada, ele próprio indo buscar uma arma de fogo em um veículo e efetuando disparos que antecederam o desfecho trágico: o atropelamento que matou Juliana Chaar, uma mulher que não tinha qualquer participação na confusão e acabou pagando com a própria vida pelo descontrole de terceiros.
Keldheky é acusado no processo de tentativa de homicídio contra Luis Passos, o seu desafeto, condutor da caminhonete envolvida no atropelamento fatal. O homenageado atualmente responde à ação em liberdade., mas época da concessão da honraria, já utilizava tornozeleira eletrônica em razão do caso.
Ainda assim, em 30 de dezembro, a OAB Acre decidiu lhe entregar uma Láurea de Agradecimento.
A pergunta ganha ainda mais peso diante da proximidade existente entre o homenageado e a direção da instituição. Keldheky era, então, sócio do escritório de advocacia do presidente da OAB-AC, Rodrigo Aiache. Após a enorme repercussão e a consternação provocadas pelo episódio, o advogado acabou se afastando do escritório, justamente diante do constrangimento que o caso produziu para seus integrantes e para a própria instituição.

Também não há notícia pública de punição disciplinar ou de abertura de procedimento interno da OAB Acre para apurar a conduta do advogado relacionada aos fatos que culminaram na morte de Juliana. A ausência de uma resposta institucional mais clara, contrastada com a concessão de uma honraria elogiosa, alimenta inevitavelmente questionamentos sobre eventual tratamento privilegiado ou protecionismo.
E é exatamente aí que mora o problema.
Uma instituição como a Ordem dos Advogados do Brasil não pode permitir que suas homenagens pareçam submetidas a relações pessoais, profissionais ou de proximidade. Uma láurea não é um simples pedaço de papel. Carrega o peso do nome da instituição e transmite uma mensagem pública sobre quem é considerado merecedor de reconhecimento.
No caso de Keldheky Maia, a mensagem transmitida pela OAB Acre causa espanto.
Enquanto a família de Juliana Chaar ainda convive com o luto e aguarda o desfecho judicial de uma tragédia que destruiu uma vida e marcou profundamente a sociedade acreana, a instituição responsável por defender princípios éticos e institucionais decidiu registrar, nos seus próprios anais, elogios à trajetória profissional de um advogado que já estava no centro de um dos episódios criminais mais graves e traumáticos dos últimos anos no Estado.
Ninguém está pedindo condenação antecipada. Mas também ninguém é obrigado a fingir que uma homenagem institucional existe em um universo paralelo, desconectado da realidade.
A OAB Acre precisa explicar, com transparência, quem propôs a Láurea, quais critérios foram utilizados, quem aprovou a homenagem e por que se considerou adequado concedê-la naquele momento.
Porque, quando faltam critérios claros, sobram suspeitas.
E quando uma instituição silencia sobre essas perguntas, a homenagem deixa de ser apenas uma homenagem. Passa a ser um documento que exige explicações.
Especialmente quando, do outro lado dessa história, há uma família que continua convivendo com uma ausência irreparável: a de Juliana Chaar.
A Láurea
A Láurea de Agradecimento é uma honraria ou homenagem de reconhecimento, concedida para expressar gratidão a uma pessoa ou instituição pelos serviços prestados, pela colaboração, apoio ou contribuição relevante.
No caso da OAB, quando uma Láurea de Agradecimento é entregue, ela normalmente representa um reconhecimento institucional da advocacia à atuação, parceria ou contribuição do homenageado.


