Uma das páginas mais sombrias da história do Acre continuava aberta até esta semana na memória de uma mulher que perdeu praticamente tudo para a violência de um grupo de extermínio que atuava dentro da estrutura policial do Estado. Em reportagem publicada em 23 de outubro de 2019, a jornalista Tácita Muniz, do G1 Acre, conseguiu um depoimento raro e profundamente comovente de Evanilda Firmino, viúva de Agilson Firmino, conhecido como Baiano, uma das vítimas do episódio que ficou nacionalmente conhecido como Crime da Motosserra. Oseringal reproduz a fala da mulher, viúva de “baiano”, que, agora, deve ser indenizada pelo estado, conforme reportagem publicada há pouco (leia abaixo).
Na entrevista, concedida em meados de 2019, 23 anos depois dos assassinatos, Evanilda, então com 63 anos, rompeu o silêncio sobre a execução do marido e do filho Wilder Firmino, de apenas 13 anos. Ambos foram mortos em 1996, em Rio Branco, em crimes associados ao Esquadrão da Morte, grupo ligado ao ex-coronel da Polícia Militar Hildebrando Pascoal.
A história, resgatada por O Seringal a partir da reportagem de Tácita Muniz, expõe não apenas a brutalidade dos assassinatos, mas também a longa batalha de uma família por reconhecimento, reparação e justiça.
A família que veio ao Acre em busca de uma vida melhor
Agilson Firmino e Evanilda deixaram a Bahia e se estabeleceram no Acre com a esperança de construir uma vida mais digna. O casal abriu um restaurante especializado em comidas nordestinas, onde conheceu José Hugo, apontado como responsável pela morte de Itamar Pascoal, irmão de Hildebrando, em 30 de junho de 1996.
A partir daquele assassinato, segundo os registros do caso, Hildebrando, então comandante da Polícia Militar, iniciou uma perseguição ao homem acusado de matar seu irmão.
Baiano acabou envolvido nessa caçada por conhecer José Hugo e ter presenciado o episódio.
De acordo com o processo mencionado na reportagem, Agilson foi submetido a torturas, teve membros amputados com uma motosserra e os olhos perfurados.
O filho Wilder também foi assassinado. O adolescente teve o corpo atingido por ácido e sofreu disparos de arma de fogo.
A violência dos crimes transformou o caso em um símbolo nacional dos abusos cometidos por agentes públicos e grupos de extermínio.
A noite em que a família foi destruída
Evanilda reconstruiu os acontecimentos daquela noite. à jornalista, ela contou que homens armados, vestidos à paisana, apareceram em sua residência afirmando que o marido havia sofrido um acidente de trânsito porque estaria dirigindo embriagado.
A versão era falsa.
Segundo a viúva, os homens a conduziram ao quartel da Polícia Militar, enquanto outro grupo foi à sua casa buscar um de seus filhos.
Emanuela, também adolescente, ofereceu-se para acompanhar os policiais, mas eles exigiram que fosse um menino. Wilder acabou sendo levado.
Evanilda somente descobriu o desaparecimento do filho quando retornou à residência e foi questionada pela filha sobre o paradeiro do irmão.
Durante a madrugada, procurou desesperadamente pelo marido e pelo adolescente.
No dia seguinte, recebeu a notícia de que um corpo havia sido encontrado em uma estrada. Era o de Wilder.
A mãe revelou à reportagem que o menino tinha necessidades especiais e que, posteriormente, passou a considerar a possibilidade de ele apresentar alguma condição do espectro autista, embora não houvesse diagnóstico informado.
A lembrança da violência sofrida pelo filho a acompanhava diariamente.
“Lembro de tudo, como se fosse hoje”, declarou Evanilda à jornalista do G1.
A fuga do Acre e a sobrevivência na Bahia
Depois dos assassinatos, Evanilda precisou deixar o Acre às pressas com os dois filhos sobreviventes.
A família retornou à Bahia praticamente sem pertences. A fuga foi tão precipitada que restaram poucas fotografias de Agilson.
A mulher que havia chegado ao Acre para empreender precisou reconstruir a própria existência trabalhando como empregada doméstica.
Nunca voltou a se casar.
A prioridade passou a ser garantir a sobrevivência e a criação dos filhos, marcados pela perda violenta do pai e do irmão.
A reportagem de Tácita Muniz revelou uma dimensão frequentemente esquecida nos relatos sobre o Crime da Motosserra: a vida das pessoas que sobreviveram aos assassinatos, mas continuaram convivendo com suas consequências.
O Estado e a dívida com os sobreviventes
Outro aspecto importante da entrevista foi a denúncia de ausência de reparação à família. Um documento produzido em 2015 por integrantes do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Acre, defendia providências para assegurar assistência aos familiares de Agilson Firmino.
O documento reconhecia a gravidade da atuação de agentes públicos e o emprego da estrutura estatal na prática dos crimes.
Para os integrantes do Gaeco, a condenação dos responsáveis não seria suficiente para reparar os danos causados à família.
A iniciativa buscava uma medida legal que garantisse amparo financeiro aos sobreviventes.
Entretanto, quando a reportagem foi publicada, em outubro de 2019, não havia informação de avanço concreto da proposta na Procuradoria-Geral do Estado.
Evanilda continuava aguardando uma reparação que, segundo explicou, poderia proporcionar melhores condições de vida aos filhos.
Sem ódio, mas com uma dor que não desaparece
Talvez o trecho mais marcante da entrevista seja a maneira como Evanilda falou sobre os responsáveis pela destruição de sua família.
Mesmo depois de perder o marido e o filho em circunstâncias tão violentas, afirmou não alimentar sentimentos de vingança.
Sua esperança estava depositada na fé e na possibilidade de oferecer uma vida mais tranquila aos filhos sobreviventes.
A declaração, registrada por Tácita Muniz, revela o contraste entre a violência praticada contra a família e a postura de uma mulher que, apesar do sofrimento, não desejava perpetuar o ódio.
“Não carrego revolta, nem ódio de ninguém, tá na mão de Deus. Não tem justiça que pague o que eles fizeram, só entrego a Deus. Acredito que um dia, se tiver direito a alguma coisa, vou ter, mas não carrego revolta, nem raiva de ninguém, nem dele [Hildebrando]. Só queria que meus filhos tivessem uma vida mais tranquila, porque a gente sabe o que passou para sobreviver”, lamentou Evanilda á época.
Uma ferida na história do Acre
O Crime da Motosserra ultrapassou os limites de uma investigação policial. Tornou-se um marco da discussão sobre violência institucional, grupos de extermínio e utilização de estruturas públicas para interesses criminosos.
A história de Agilson e Wilder Firmino permanece como lembrança das consequências que a ausência de controle sobre o poder armado pode produzir.
Mas há outra dimensão dessa tragédia: a dos familiares que precisam sobreviver depois que as manchetes desaparecem e os processos deixam de ocupar o noticiário.
Crédito jornalístico: Texto de O Seringal, elaborado a partir da reportagem original de Tácita Muniz, do G1 Acre, publicada em 23 de outubro de 2019, intitulada “Esquartejamento, ácido e tortura: Crime da Motosserra no AC faz 23 anos e viúva fala pela 1ª vez”. A ilustração é da época. Os depoimentos e as informações históricas foram originalmente apurados pela jornalista.

