Há aproximadamente 30 dias, Sena Madureira convive com uma situação que ultrapassou os limites do descaso administrativo e se transformou em uma preocupante questão de saúde pública.
O lixão municipal, instalado às margens da BR-364, na saída do perímetro urbano, permanece em chamas. Dia após dia, toneladas de resíduos queimam e lançam sobre comunidades vizinhas uma espessa nuvem de fumaça potencialmente tóxica.
A pergunta que o OSeringal faz ao prefeito de Sena Madureira é simples: quanto tempo mais a população terá de respirar a fumaça do lixo para que a Prefeitura apresente uma solução concreta?
E a cobrança não se limita ao Executivo municipal.
Onde estão os órgãos ambientais, sanitários e de fiscalização diante de um incêndio que já dura semanas? Que providências efetivas foram tomadas para proteger trabalhadores, crianças, famílias que vivem nas proximidades e até pessoas encontradas dentro da própria área do lixão?
Fábrica chega a interromper trabalho por causa da fumaça
A situação atingiu tamanha gravidade que uma fábrica de compensados instalada ao lado do lixão precisa, segundo seu gerente, interromper atividades em determinados períodos.
“Tem dia, aqui, que a gente precisa dispensar os funcionários por causa da fumaça poluída que vem do lixão ao lado”, relata.
Um vídeo gravado na semana passada por Luiz Granns mostra a vila onde vivem trabalhadores da fábrica praticamente engolida pela fumaça.
Moradores relatam ainda a ocorrência, nos últimos dias, de problemas respiratórios entre crianças e trabalhadores. A eventual relação entre esses casos e a fumaça precisa ser tecnicamente investigada pelas autoridades de saúde — e justamente por isso a situação exige uma resposta urgente do poder público.
Não é aceitável esperar que apareçam vítimas graves para somente depois discutir providências.
Pessoas morando dentro do lixão
A denúncia torna-se ainda mais preocupante diante de imagens obtidas com exclusividade pelo OSeringal.
Os registros mostram pessoas vivendo e trabalhando entre os resíduos.
Além da exposição direta a materiais contaminados, fumaça, objetos cortantes e outros riscos, incêndios em grandes depósitos de resíduos podem envolver gases produzidos pela decomposição de matéria orgânica e focos subterrâneos de difícil controle.
O local também seria frequentado diariamente por famílias indígenas em situação de vulnerabilidade que procuram alimentos entre os resíduos.

Mas o lixão continua queimando.
Fogo já estaria no subsolo
O incêndio, cuja origem ainda precisa ser esclarecida, teria começado há aproximadamente um mês e já não estaria restrito à superfície.
O fogo avançou para camadas internas dos resíduos, segundo relatos locais, situação que dificulta o combate e pode prolongar por semanas a emissão de fumaça e gases resultantes da combustão.

Antônio Alfredo Oliveira, que mora nas proximidades, relata:
“Eu moro a cerca de meio quilômetro do lixão e não vi até agora uma máquina da Prefeitura empenhada em apagar esse fogo. O Corpo de Bombeiros ainda veio com um caminhão-pipa no primeiro dia, mas, sozinho, acabou desistindo.”
Se a Prefeitura possui máquinas, pessoal ou um plano emergencial para enfrentar o problema, precisa informar à sociedade onde estão esses recursos e quais ações estão efetivamente sendo realizadas.
Trinta dias de fumaça não podem ser tratados como uma ocorrência rotineira.
Moradores levantam suspeita grave
Entre moradores da região circula uma suspeita ainda mais grave: a de que a ausência de uma operação efetiva para apagar o incêndio poderia estar permitindo que o próprio fogo reduzisse o enorme volume de resíduos acumulados.
O OSeringal ressalta que não há, até o momento, prova apresentada à reportagem de que a Prefeitura tenha provocado o incêndio ou deliberadamente decidido mantê-lo ativo.
Mas justamente pela gravidade da suspeita, cabe às autoridades competentes investigar a origem do fogo e esclarecer publicamente por que ele permanece ativo há tantas semanas.
Silêncio administrativo, neste caso, apenas alimenta dúvidas.
Um problema que atravessa administrações
O mais grave é que a crise do lixão de Sena Madureira não começou agora.
Há mais de uma década, o município já era alvo de cobranças para abandonar a disposição inadequada de resíduos a céu aberto e implantar uma estrutura ambientalmente adequada para destinação do lixo.
Com recursos federais, chegou a ser adquirido um terreno afastado da cidade para implantação de uma solução definitiva.
O tempo passou.
Prefeitos passaram.
Administrações mudaram.
E o lixo continuou sendo despejado no mesmo local.
Hoje, resíduos sólidos e orgânicos seguem acumulados em uma área às margens da BR-364, enquanto a população próxima convive com as consequências.
A atual gestão pode não ter criado sozinha um problema que atravessa governos, mas é dela a responsabilidade de administrar a cidade hoje e enfrentar a emergência que está acontecendo agora.
O prefeito precisa dizer claramente à população qual é o plano para apagar o incêndio, proteger as comunidades atingidas e finalmente encaminhar uma solução definitiva para a destinação dos resíduos do município.
E onde estão os fiscalizadores?
A omissão que precisa ser esclarecida não termina na porta da Prefeitura.
Se há fumaça atingindo comunidades há aproximadamente um mês, pessoas expostas dentro do lixão e risco ambiental evidente, quais fiscalizações foram realizadas? Quais autos, notificações, recomendações ou medidas emergenciais foram adotados?
Na semana passada, moradores voltaram a procurar o Ministério Público Estadual para denunciar a situação. Segundo informações recebidas pela reportagem, um novo procedimento está sendo preparado.
A iniciativa é importante, mas existe uma urgência que não cabe apenas dentro de processos e papéis: o fogo continua queimando enquanto as providências administrativas e jurídicas seguem seu curso.
A população precisa de fiscalização, mas também precisa de resultado.
Precisa respirar.
Saúde pública não pode esperar
A queima descontrolada de resíduos pode lançar na atmosfera material particulado e diferentes compostos tóxicos, dependendo do material queimado. Além da poluição atmosférica, depósitos inadequados de resíduos oferecem riscos de contaminação ambiental e proliferação de vetores.
Por isso, o caso de Sena Madureira não pode ser reduzido a uma discussão sobre limpeza urbana.
É saúde pública. É meio ambiente. É dignidade humana.
Depois de aproximadamente um mês de incêndio, o OSeringal cobra publicamente da Prefeitura de Sena Madureira uma resposta objetiva: qual operação está sendo executada para extinguir definitivamente o fogo? Há monitoramento da qualidade do ar? As famílias atingidas estão recebendo acompanhamento de saúde? O que será feito com as pessoas encontradas vivendo ou trabalhando dentro do lixão? E qual é o cronograma para uma solução definitiva para os resíduos sólidos do município?
A reportagem também cobra respostas dos órgãos ambientais, sanitários e de fiscalização competentes, além do Ministério Público, sobre as providências já adotadas e aquelas que ainda serão tomadas.
Porque, enquanto autoridades discutem competências e procedimentos, há uma população respirando a fumaça do lixo.
E trinta dias depois, a pergunta permanece no ar — misturada à fumaça:
quem vai assumir a responsabilidade de apagar esse incêndio?
O OSeringal tentou obter posicionamento da Prefeitura de Sena Madureira e mantém espaço aberto para que o poder público municipal informe as providências adotadas para combater o incêndio, atender a população afetada e solucionar definitivamente a destinação dos resíduos do município. O espaço também permanece aberto aos órgãos fiscalizadores citados para manifestação.

