O primeiro capítulo dessa história foi protagonizado por Jair Bolsonaro. Em fevereiro de 2024, o ex-presidente passou duas noites na Embaixada da Hungria, em Brasília, poucos dias depois de ter seu passaporte apreendido pela Polícia Federal. O episódio, revelado pelo jornal americano The New York Times, levantou suspeitas de que Bolsonaro procurava proteção diplomática diante do avanço das investigações. A suspeita de tentativa de asilo, entretanto, não foi comprovada.
Na sequência, Eduardo Bolsonaro transformou os Estados Unidos em seu principal endereço político. O parlamentar, que construiu parte de sua carreira exaltando a soberania nacional, passou a atuar em território americano, inclusive defendendo pressões externas contra autoridades brasileiras.
É nesse ponto que o discurso patriótico encontra sua mais evidente contradição. Como justificar a defesa intransigente da soberania brasileira enquanto se busca a interferência de uma potência estrangeira nos assuntos internos do próprio país?
O afastamento de Eduardo da atividade parlamentar e as consequências para seus vínculos com o serviço público representam o desgaste de uma trajetória marcada pela prioridade dada aos embates políticos da família.
Agora, o terceiro capítulo envolve Flávio Bolsonaro. Derrotado por Lula na disputa presidencial, o senador deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos nesta terça-feira (27), segundo informações confirmadas pela Reuters. A saída ocorreu após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinar a entrega de seus passaportes, ordem que não foi cumprida no prazo estabelecido. Flávio continua formalmente senador, mas sua partida representa, politicamente, o abandono do posto de liderança da oposição que prometera exercer.
O episódio é ainda mais constrangedor porque, na véspera, Flávio havia negado publicamente qualquer intenção de deixar o país. A fuga, portanto, não apenas contraria suas próprias palavras, como amplia o desgaste de uma família que fez da lealdade à bandeira brasileira um dos principais instrumentos de mobilização eleitoral.
No caso de Eduardo, a conta já chegou. Teve o mandato de deputado federal cassado em dezembro de 2025 por faltas às sessões da Câmara e, em setembro de 2026, foi demitido do cargo de escrivão da Polícia Federal por abandono de função. Dois cargos públicos perdidos enquanto permanecia nos Estados Unidos, onde sua atuação em favor de sanções contra o Brasil se tornou alvo de condenação judicial.
O que se desenha é o retrato de um patriotismo seletivo: exige sacrifícios dos seguidores, mas procura proteção estrangeira quando os próprios líderes enfrentam as consequências de suas escolhas.
É difícil encontrar expressão mais contundente de entreguismo político do que recorrer ao poder de outro país para pressionar as instituições nacionais. A soberania, tantas vezes invocada nos palanques bolsonaristas, não pode ser tratada como um valor descartável quando contraria os interesses da família.
O Brasil que os Bolsonaro dizem amar parece servir perfeitamente para conquistar votos, ocupar cargos, exercer poder e receber apoio popular. Mas, quando chegam a derrota eleitoral, as investigações e a cobrança de responsabilidades, os Estados Unidos passam a representar uma alternativa conveniente.
A pergunta que fica é inevitável: que espécie de patriotismo manda seus seguidores defenderem o Brasil enquanto seus líderes procuram refúgio fora dele?
A bandeira brasileira não pode continuar sendo usada como escudo de conveniência política. Patriotismo não se mede pelo tamanho da bandeira exibida nas manifestações, mas pelo respeito às instituições, à soberania e às responsabilidades assumidas perante o povo.
No fim, a família que prometia jamais abandonar o Brasil parece cada vez mais disposta a abandonar o próprio país. E deixa aos seguidores a tarefa de defender um nacionalismo que seus principais representantes demonstram não estar dispostos a praticar.

