Europa ficou presa entre coerção de Trump e violência de Putin, diz Kalout
A Europa está comprimida entre “o anarquismo” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a postura militar agressiva da Rússia, segundo o cientista político e pesquisador de Harvard, Hussein Kalout.
Ao WW Especial, Kalout destaca a mudança de postura dos americanos em relação aos europeus desde o início do segundo mandato de Trump. A Casa Branca ainda considera o velho continente como um aliado, mas o trata como defasado e fraco.
Além disso, Trump e aliados atacam os programas de imigração do bloco e tentam interferir em processos eleitorais de nações europeias. O grupo cobra, também, uma expansão nos gastos militares dos países da região que estão na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), desejando que eles “sejam donos da própria proteção”.
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A postura agressiva de Washington contra Bruxelas, segundo Kalout, fortalece a Rússia. “Fortalece o apetite dos russos de se tornar mais agressiva com a Europa Ocidental”, destaca.
Após tantos ataques diretos e indiretos, eles parecem ter “se tocado” de que estão sozinhos.
“Quando a Europa percebe que perdeu seu guarda-chuva securitário, que advinha dos EUA, ela percebe que se torna totalmente exposta à Rússia”, afirmou o especialista ao WW Especial.
O resultado disso é uma tentativa de rearmamento de diversos países do continente europeu. A Polônia, por exemplo, expandiu as despesas militares ao longo dos últimos 5 anos – saindo de 2,3% do PIB em 2020 para 4,2% em 2024.
Os países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) também seguiram o mesmo caminho e aumentaram seus gastos com defesa para acima de 3% do PIB. As quatro nações fazem fronteira direta com a Rússia.
Outra nação nesta lista é a Alemanha. O país furou seu rigoroso teto de gastos para expandir investimentos no setor, superando, também, um trauma geracional envolvendo o tema. Junto de Varsóvia, Berlim passou a levar a bandeira de uma nuclearização da Europa.
“Consideramos a dissuasão nuclear estritamente integrada na nossa partilha nuclear no âmbito da OTAN e não permitiremos o desenvolvimento de zonas com diferentes níveis de segurança na Europa”, afirmou o primeiro-ministro da Alemanha, Friedrich Merz, no começo do mês.
Merz afirmou que teria conversas com o presidente da França, Emmanuel Macron, sobre o tema. A França é o único país da União Europeia a ter armas nucleares – Itália, Bélgica, Alemanha e Países Baixos apenas abrigam esse tipo de armamento.
“A França tem um papel vital neste caso. Aí entra o discurso do Macron na Conferência de Segurança de Munique em que ele fala que a Europa precisa pensar como um coletivo, como uma superpotência, em termos securitários e de defesa”, aponta Kalout.
“Porque essa é a única forma”, prossegue o especialista, “da Europa resistir ao perigo da Rússia e organizar as capacidades em função do espaço dos americanos”.
Durante seu discurso em Munique, Macron disse que a região precisa se tornar um “poder geopolítico” – com maior integração interna em diversos setores, desde o militar até o tecnológico.
“Se nós quisermos ser levados a sério no continente europeu e além dele, nós precisamos mostrar ao mundo nosso compromisso inabalável de defender nossos interesses”, disse o líder francês.
O conceito apresentado por Macron durante o discurso em Munique não é estranho para os europeus – especialmente os franceses. O primeiro presidente da 5ª República da França, o general Charles de Gaulle, defendia uma “autonomia estratégica” da Europa para o resto do mundo.
De Gaulle dizia que o continente europeu não deveria depender de ninguém. Dessa forma, tirou a França do comando militar integrado da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) visando reduzir a influência dos Estados Unidos na defesa de seu país.
Ainda durante o mandato presidencial de De Gaulle, ele visitou os países da América do Sul tentando expandir a força diplomática, comercial e econômica para o outro lado do Oceano Atlântico – em um contrapeso aos americanos. A posição de Washington na região, no entanto, se manteve praticamente inalterada.
A autonomia estratégica se tornou algo “que a Europa precisa”, segundo Kalout. “De Gaulle estava certo”, finaliza.
WW Especial
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