Por: Nesio Carvalho
A recente reportagem do portal Oseringal, conduzida pelo competente jornalista Assem Neto sob o título “Homofobia e intolerância religiosa: por que Jéssica Sales não deve ser vice de Maílza Assis”trouxe à tona uma leitura necessária do cenário político acreano, mas também revelou as vísceras de um preconceito que insiste em travestir-se de “dogma”. Ao observarmos as reações em torno de figuras como Jéssica Sales e a vice-governadora Mailza Assis, nos deparamos com o fantasma da intolerância religiosa e da homofobia pautando escolhas eleitorais.
Como ativista e comunicador, tenho feito perguntas para as quais o silêncio tem sido a única resposta. Muitos que se dizem cristãos afirmam não votar em cidadãos LGBTQIA+ por receio de que estes priorizem apenas pautas identitárias. No entanto, a história e a prática política desmentem esse temor com fatos concretos.
O Exemplo da Ética acima da Estética
Recordo-me do saudoso deputado Clodovil Hernandes. Um estilista íntegro, de conduta irrepreensível como cidadão. Ao chegar ao Parlamento, Clodovil não se vendeu, não negociou seu voto e manteve uma postura ética que envergonharia muitos que hoje ocupam bancos de igrejas e participam da Ceia ou da Eucaristia, mas que, nos bastidores, negociam o bem público.
O que percebemos é que muitos gays, ao ocuparem funções públicas, sabem distinguir perfeitamente suas atribuições profissionais de suas escolhas de vida pessoal. Ironicamente, vemos hoje mais políticos heterossexuais “usando” as bandeiras de gênero para obter vantagens políticas do que os próprios indivíduos que essas pautas representam.
A Falsa Moralidade das Estatísticas
Não me venham falar de proporcionalidade. A classe política atual nos envergonha. O que vemos hoje, na sua maioria, são desvios de recursos de cotas femininas, apadrinhamentos ilícitos em obras públicas e um enriquecimento incompatível com o salário recebido.
A pergunta que não quer calar é: Onde está a régua moral desses “guardiões da família” quando o assunto é a corrupção?
Afirmo sem medo: existem muito mais políticos corruptos declarados “héteros e cristãos” do que políticos gays. Se o adultério é um pecado capital perante a Lei de Deus, por que tantos políticos que mantêm vidas duplas fora do casamento — traindo não apenas suas esposas, mas seus princípios — continuam sendo blindados pelo rótulo de “homens de bem”?
Conclusão: O Voto e o Valor
O caráter de um homem ou de uma mulher pública não se mede pelo seu desejo sexual, pela sua libido ou por quem ele(a) escolhe amar. O caráter se mede pelas ações:
- Pela transparência com o dinheiro do povo;
- Pela recusa ao suborno;
- Pela entrega de resultados na saúde, na educação e na regularização fundiária.
Enquanto a religião for usada como escudo para esconder desvios de conduta e como arma para segregar cidadãos honestos, nossa política continuará doente. É preciso olhar para o cenário desenhado por Assem Neto e entender que o Acre e o Brasil precisam de gestores eficientes, e a honestidade, meus amigos, não tem orientação sexual.
Nesio Carvalho
Comunicador e Ativista da Regularização Fundiária.