Em tempos em que milhares de famílias aguardam por uma casa digna, a cena de um ex-secretário de Habitação desfrutando de um farto almoço em Manaus, em pleno dia de expediente, causa mais do que estranheza — provoca indignação.
O protagonista do episódio é Egleuson Araújo Santiago, ex-titular da Secretaria de Habitação do Acre. Após anunciar afastamento do cargo para disputar as eleições de 2026, Santiago acabou protagonizando um movimento que beira o surrealismo administrativo: articulou sua própria recondução à pasta, agora nomeado em um cargo CAS-8, com salário superior a R$ 9 mil.
Até aí, já haveria muito a explicar. Mas o cenário fica ainda mais desconfortável quando se observa que, enquanto a burocracia pública mantém seu contracheque ativo, não há qualquer registro de missão oficial que justificasse sua presença no estado amazonense. Tampouco se tem notícia de qualquer providência para o corte de ponto.
O episódio poderia ser apenas mais um caso de descuido administrativo, não fosse o contexto que Santiago deixou para trás ao se afastar da secretaria: um verdadeiro imbróglio jurídico envolvendo o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida em Rio Branco.
A crise se concentra na comunidade do Irineu Serra, onde um empreendimento destinado a famílias em extrema vulnerabilidade enfrenta um impasse que ameaça o cronograma de execução. A Secretaria de Habitação acusou a construtora Newen de invadir área de preservação permanente e extrapolar em cerca de dois mil metros a poligonal da área originalmente destinada ao projeto.
A denúncia partiu de um parecer técnico elaborado pela arquiteta Daiana Iasmin, lotada na própria secretaria. Segundo o documento, teriam ocorrido intervenções físicas fora da área doada ao Estado, com movimentação de solo e implantação de estruturas de drenagem sem respaldo legal ou contratual.
A construtora reagiu com veemência. Seu administrador, Geraldo Emiliano Júnior, classificou as acusações como tecnicamente insustentáveis. De acordo com a empresa, não houve invasão de área de preservação permanente nem intervenção fora dos limites autorizados. O que teria ocorrido, segundo a defesa da construtora, foi a constatação tardia de que a delimitação inicialmente definida pelo próprio governo estadual era insuficiente para garantir soluções de engenharia essenciais à segurança do empreendimento.
O conflito institucional chegou a níveis preocupantes. A situação foi levada ao conhecimento da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e pode terminar em judicialização, algo que o Ministério Público acompanha de perto.
A secretária que substitui Egleuson disse reservadamente que “O MP vai judicializar”. Ela tentou minimizar o estrago, sinalizando que “a imprensa tem sido abastecida com informações controversas”. No entanto, a obra permanece estagnada, os recursos federais estão garantidos e o entrave não tem data para ser resolvido.
No meio dessa disputa técnica e jurídica, estão famílias que deveriam ser as verdadeiras prioridades da política habitacional: mulheres vítimas de violência doméstica, pessoas com deficiência, idosos e beneficiários do aluguel social. Foi para esse público que o governo prometeu entregar moradias até abril de 2026.
Enquanto isso, a obra permanece cercada de incertezas. E o programa que deveria simbolizar esperança transforma-se em campo de batalha burocrática.
É nesse contexto que a imagem do ex-secretário no restaurante de uma construtora, longe do estado e em horário de expediente, ganha peso político e simbólico. Mais do que uma questão de agenda pessoal, o episódio expõe um problema recorrente na gestão pública brasileira: a distância entre quem decide e quem depende dessas decisões para viver com dignidade.
A pergunta que fica não é apenas sobre onde estava Egleuson Santiago naquele almoço em Manaus.
A pergunta real é outra: quem está cuidando da política de habitação enquanto as casas prometidas continuam apenas no papel?
