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Miséria e estômago vazio: com ou sem Maduro, êxodo de venezuelanos avança e Acre segue subsidiando crise humanitária

Quatro meses se passaram desde a queda de Nicolás Maduro e a ascensão de um governo de transição sob a liderança de Delcy Rodriguez. No entanto, para as famílias que cruzam a fronteira em Assis Brasil, a geopolítica em Caracas pouco importa diante do estômago vazio. O Acre continua sendo a principal porta de entrada para uma massa de venezuelanos que foge da fome e da instabilidade que o “governo tampão” ainda não conseguiu reverter.

O fluxo migratório na pequena Assis Brasil permanece inalterado. Os imigrantes acessam o território brasileiro após cruzarem o Peru em caravanas a pé ou em transportes clandestinos. O comerciante Antônio Ronaldo Souza, testemunha ocular do problema na fronteira, relata que o perfil da migração continua o mesmo: “São homens e mulheres com crianças nos braços e idosos que todos os dias estão na porta da gente suplicando por ajuda”.

O destino é quase sempre o mesmo: Rio Branco, de onde esperam seguir para o sul do país e quanto pedem moedas nos semáforos e dormem ao relento.

Mas, para isso, precisam enfrentar o “funil” de Brasiléia e Epitaciolândia, onde a peregrinação por vistos de entrada e alimentação se repete sob sol e chuva.

O “Gargalo” da Capital: Rodoviária vira dormitório

Na capital acreana, o cenário é de saturação. Sem vagas nos abrigos municipais, famílias inteiras ocupam o saguão da Rodoviária Internacional. É o caso de Alfredo Orteg Gonzale, que há três semanas aguarda a liberação de passagens pelo Governo Federal ou o auxílio de parentes que já estão em São Paulo. “Fomos informados que não havia vaga no abrigo. O jeito foi dormir na rodoviária”, desabafa o patriarca.

 Gonzale estava a mais de três semanas alojada no saguão da rodoviária riobranquense quando conversou com a reportagem de OSeringal nesta terça- feira (14).

A pedido dele, o registro de imagem deles foi feito à distância para não identificá-los.

“Ao desembarcamos aqui fomos informados por outros venezuelanos, que chegaram primeiro do que a gente, que não havia mais vaga no abrigo e o jeito foi dormir na rodoviária enquanto o governo libera nossas passagens ou meu irmão, que já está em São Paulo, consiga recurso para mandar buscar a gente”, disse.

A diretoria da casa de apoio ao imigrante em Rio Branco confirmou a situação permanente de super lotação e, mais uma vez, se queixou no atraso de repasse do governo federal e da burocracia documental para os estrangeiros seguirem destino.

Com base nas explicações das secretarias de ação social das cidades acreanas localizadas na rota da imigração ao longo da BR-317, a redação de OSeringal fez uma espécie de Mapa do saturamento por município do fluxo migratório no Acre.

MAPA DO SATURAMENTO: O Custo do Acolhimento

Um levantamento realizado pela redação de OSeringal, com base em dados das secretarias de assistência social ao longo da BR-317, revela o impacto real nos cofres públicos dos municípios acreanos:

Município Papel no Fluxo Impacto Real
Assis Brasil Porta de Entrada Triagem constante. Prefeitura banca alimentação e abrigo emergencial com recursos próprios.
Brasiléia Cidade Intermediária Abrigos lotados. Praças e rodoviária transformadas em dormitórios. Aumento súbito na demanda de UBSs.
Epitaciolândia Registro Migratório Pressão extrema nos serviços de saúde e segurança pública. Aluguel social pago com verba municipal.
Rio Branco Destino Final (AC) Saturação do HUERB e UPAs. Escolas com alunos em barreira linguística e impacto direto na merenda escolar.

A Conta que não Fecha: Merenda e Assistência sob Pressão

O impacto mais invisível e perverso ocorre na educação e na assistência social. O repasse do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para a merenda escolar é baseado no Censo Escolar do ano anterior. Como o fluxo migratório é flutuante e contínuo, um aluno venezuelano matriculado hoje só “gera recurso” para a merenda no próximo ano.

“O Acre está subsidiando uma crise internacional com orçamento de Estado pobre”, resume a análise técnica das secretarias locais.

Embora a União envie recursos pontuais via Operação Acolhida, a manutenção básica — arroz, feijão, luz e saneamento das casas de passagem — recai sobre o poder público acreano.

A rede do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) não foi projetada para uma crise humanitária permanente, e o resultado é uma assistência pública que opera muito além do seu limite financeiro e humano.

O Futuro Incerto

Enquanto a “interferência norte-americana” e o governo de transição buscam estabilizar a Venezuela, o Acre segue sendo o para-choque social de um continente em crise. Para os venezuelanos na rodoviária de Rio Branco, a política é distante; a urgência é a passagem de ônibus que os levará para longe da fronteira da fome.

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