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O sopro de vida e a luta por justiça no Acre: a jornada da pequena Mavie

Por REDAÇÃO 15/05/2026 17:58

Com pouco mais de um ano de existência, a pequena Mavie Maria de Souza Roque Brito já carregou em seu peito cicatrizes e batalhas que superam as de uma vida inteira. Desde os seus primeiros suspiros, sua jornada tem sido um testemunho de resiliência: passou por sete cirurgias cardíacas, traz consigo um marca-passo definitivo, depende do oxigênio para respirar e exige uma rotina de cuidados intensivos que desafia a própria fragilidade humana.

Essa história de amor e provação começou ainda no ventre materno. Foi durante a gestação que a mãe, Girlene de Souza Roque, recebeu o devastador diagnóstico de uma cardiopatia congênita grave e rara. Amparada pelo Tratamento Fora de Domicílio (TFD), Girlene partiu para São Paulo, dando à luz Mavie no Hospital HCor. Ali, no limiar entre o medo e a esperança, iniciou-se a longa vigília pela sobrevivência da menina.

“Foi uma mudança radical. Antes eu trabalhava, hoje sou cuidadora em tempo integral da Mavie. Ela precisa de atenção 24 horas por dia”, relata a mãe, cuja vida transformou-se em um ato contínuo de devoção.

Após meses de internação longe de casa, Mavie retornou ao Acre em uma UTI aérea, encontrando no programa domiciliar “Melhor em Casa” um acalento temporário. No entanto, o que deveria ser um porto seguro desmoronou: os atendimentos especializados tornaram-se escassos e, por fim, cessaram por completo.

A interrupção de terapias vitais como a fisioterapia e a fonoaudiologia cobrou um preço alto e doloroso do desenvolvimento da criança. Em virtude de sua grave condição e da dependência do oxigênio, Mavie não pode ser transportada a centros de reabilitação comuns; a sua casa é o seu hospital, e a assistência domiciliar é a sua única chance de dignidade.

“Quando o programa deixou de atender a Mavie, tudo parou. Isso prejudicou muito o desenvolvimento dela. Hoje ela ainda não senta e não fala”, desabafa Girlene, revivendo a dor de ver o tempo correr contra o crescimento de sua filha.

A Defensoria Pública: A Porta que se Abre Quando Todas se Fecham

Sozinha, diante de portas trancadas pela burocracia e pelo descaso, Girlene recusou-se a aceitar o silêncio como resposta. Foi nesse momento de extrema vulnerabilidade que a Defensoria Pública do Estado do Acre estendeu a mão, transformando-se no escudo e na voz daquela família.

“Eu bati em todas as portas e todas estavam fechadas. Foi quando decidi procurar a Defensoria. Eu precisava que alguém lutasse pelo direito da minha filha”, relembra a mãe, com os olhos marejados de gratidão.

Sensibilizado pela urgência da vida que clamava por socorro, o defensor público Celso Araújo assumiu a causa com o rigor e a compaixão que o momento exigia. Ingressou imediatamente com uma ação judicial, pleiteando não apenas o restabelecimento do atendimento domiciliar, mas também o fornecimento de fórmula alimentar, oxigenoterapia, insumos para gastrostomia e todo o suporte médico essencial para que Mavie pudesse continuar lutando.

O Triunfo do Direito e da Dignidade

A resposta do Poder Judiciário foi um eco da justiça que a Defensoria buscou incansavelmente. Reconhecendo o perigo iminente e a sensibilidade do caso, a Justiça determinou que o Estado do Acre e o Município de Rio Branco garantam, sem demoras, o tratamento integral da menor. Magistrados relembraram o princípio maior: a saúde é um direito sagrado e as crianças gozam de prioridade absoluta e intocável na proteção de suas vidas.

Para Girlene, a intervenção da instituição foi o divisor de águas entre o desespero e a vitória:

“A Defensoria foi ágil, deu importância ao caso da minha filha e fez valer os direitos dela. Quando a gente não tem condições de pagar um advogado e encontra alguém disposto a lutar por nós, isso muda tudo.”

O calvário e a vitória de Mavie não são fatos isolados; refletem a realidade invisível de inúmeras famílias que enfrentam a dor da negligência em momentos de profunda enfermidade. Mas, acima de tudo, este caso ergue-se como um monumento à missão institucional da Defensoria Pública: acolher os desamparados, combater as desigualdades e garantir que a lei seja o refúgio dos que mais precisam.

Com a força de quem viu a justiça se materializar na vida da filha, Girlene deixa um apelo solene a todas as famílias que cruzam o mesmo deserto:

“Tem muitas mães vivendo a mesma luta que eu. Então eu digo: procurem a Defensoria Pública. Não é favor. É direito.”

Com informações de Agatha Lima e Diogo José

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