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Carta aberta aos bolsonaristas e a hora de encarar o espelho

Se a urna confirmar a derrota, talvez seja hora de encarar aquilo que vocês passaram anos tentando negar.

Por Antony Gusmâo

O negacionismo virou uma espécie de doença política: negar fatos, negar erros, negar evidências, negar até a realidade quando ela contraria a própria convicção. E, junto dele, veio uma incapacidade quase absoluta de fazer mea culpa.

Errar é humano. Recusar-se permanentemente a reconhecer o erro é uma escolha.

Foi assim que a política virou trincheira. Adversários foram tratados como inimigos; instituições, como obstáculos; jornalistas, como inimigos a serem destruídos. E parte da militância mergulhou no submundo das redes sociais para atacar, injuriar, difamar e desonrar pessoas, muitas vezes escondida atrás do anonimato.

Criaram fakes. Espalharam acusações sem prova. Destruíram reputações. Transformaram ódio em combustível político — e, protegidos por uma tela, fizeram coisas que talvez jamais tivessem coragem de repetir olhando nos olhos. A covardia grita…e expõe uma deficiência de caráter atestada cientificamente. E uma cultura odiosa de auto aniquilação. Pedir vergonha e respeito é como, já diziam nossos avós, entrar por um ouvido e saí por outro. É tempo perdido.

É preciso perguntar: que tipo de sociedade estamos construindo quando alguém se sente autorizado a destruir a honra de outro ser humano simplesmente porque ele pensa diferente?

Antes de apertar o botão “enviar”, talvez valesse lembrar que do outro lado também existe uma pessoa: alguém que tem pai, mãe, filhos, netos, família, história e dignidade.

A política não pode transformar ninguém em monstro.

Se Lula for reeleito, não será o fim do Brasil. Será o resultado de uma escolha popular que precisará ser respeitada.

E não haverá perseguição a quem pensa diferente.

Mas há algo que a democracia pode, sim, rejeitar nas urnas: o autoritarismo, o golpismo, o negacionismo, a mentira deliberada, a intolerância e o ódio como método de fazer política.

A extrema direita poderá continuar existindo. Poderá disputar eleições, apresentar candidatos e defender suas ideias.

O que ela não pode exigir é imunidade diante dos próprios erros.

Chega de negar tudo. Chega de culpar todos. Chega de nunca pedir desculpas.

Se a derrota vier, talvez o maior gesto de patriotismo seja finalmente olhar para dentro e fazer aquilo que faltou durante tanto tempo:

um sincero mea culpa.

Porque democracia não exige que ninguém deixe de ser de direita.

Exige apenas que ninguém se considere dono do Brasil.

A urna fala. A democracia decide. E quem realmente ama o país sabe, inclusive, perder.

 

Acreano, pai, acadêmico de Ciências Sociais e a apartidário.

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REDAÇÃO

Autor da publicação.