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Emylson Farias escreve: a arte que nos salva de nós mesmos

​Eu devia ter quatro ou cinco anos quando percebi que as manhãs tinham som de água e rádio ligado. Para mim, criança pequena, a vida era só aquele espaço bonito entre o quintal e o céu, e minha mãe cantava com uma naturalidade tão bonita que parecia que passar o dia cantando Roberto Carlos era algo que fazia apenas por alegria.

​Ela cantava com força, com a alma solta. Diante dela, uma pilha imensa de roupas — lençóis pesados de uma família grande, de seis filhos, que pareciam não ter fim. Eu achava que a música era só um capricho, uma companhia bonita para as horas.

​Levei anos para entender que não. O cantar não era um mero acaso; era a ferramenta secreta de quem precisava transformar o ferro em pluma. Aquele trabalho duro no tanque, o suor da lida bruta que moía os braços e o corpo — tudo ali pedia um alívio. E ele vinha em forma de música. A arte entrava naquele quintal como um antídoto silencioso, dando leveza a um dia que, de outro modo, seria pesado demais para se carregar.

​Aquela lição da minha mãe, entre a espuma e o varal, ensinou-me algo para a vida toda. Onde quer que a existência doer mais — onde o corpo estiver esmagado por uma realidade insuportável que insiste em nos puxar para trás —, lá estará a arte como última defesa do espírito.

​Por isso, a arte nunca foi mero enfeite ou passatempo; é ferramenta secreta de sobrevivência.

​Nos campos de algodão do sul distante, onde a lida exaustiva feria as mãos, o canto que saía daquelas gargantas não era distração. Era o único território livre onde o chicote não alcançava e onde a alma se recusava a ser algemada.

​Essa mesma chama acendia a noite na senzala, quando o batuque e a dança faziam a poeira do chão parecer mais perto das estrelas.

​E no silêncio sufocante de um sótão, sob o terror da guerra, foi abraçando o seu diário que a pequena Anne Frank inventou não um refúgio de fuga, mas uma fresta de resistência para continuar acreditando no amor.

​E como nós precisávamos dessa mesma fresta esta semana.

​A notícia veio pesada de Brasiléia, cortando o silêncio da noite com o anúncio de um horror absurdo: a execução fria de uma médica de 39 anos. Nos dias que se seguiram, a terra inteira não falou de outra coisa.

​Cada detalhe que saía — a busca incessante pela identificação do executor, a revelação sombria do mandante, a motivação torpe e o desprezo absoluto pelas medidas protetivas — empurrava-nos para o fundo do abismo. Foi uma semana inteira de angústia sufocante.

Diante da banalização do mal a ferir nossa gente, a sensação era a de ter levado, todos nós, um tiro no peito.

​Arrastamos esses dias com o coração apertado, sufocados pela mesma dúvida cruel: ainda dá para continuar acreditando na humanidade?

​Foi quando veio a noite de quinta-feira, e o show de Roberto Carlos parou o Acre.

​Vendo aquele artista de mais de oitenta anos conduzir a multidão com sua voz suave, e a orquestra encaixar cada nota com perfeição sob o gesto do maestro, o tempo parou. Naquele instante exato, o trompete, o sax e o piano não estavam apenas fazendo música no palco. Eles estavam me devolvendo direto para o fundo do quintal da minha infância.

​No brilho daqueles acordes, olhei para o lado e vi que a humanidade ali reunida respirava paz. A arte cumpria de novo a sua missão: salvar-nos da brutalidade e devolver-nos a capacidade de sentir.

​Saímos de lá com o espírito aquecido por quase duas horas, mas a verdade é que o show acalenta, não apaga. O espetáculo termina e a noite continua de guarda aberta, cobrando de nós o que faremos com os dias que restam.

​Precisamos escolher, com a urgência de quem está vivo, qual casa queremos habitar. Se o mundo de cinzas e chumbo, onde a vida se esvai pelo cano de uma arma indiferente; ou este outro mundo secreto e tenaz, onde a arte nos desarma e nos lembra que cada ser humano é sagrado.

​Afinal, o rádio da minha mãe e o palco daquela quinta-feira nos dizem a mesma coisa. A arte não é o esconderijo de quem foge da dor, mas o espelho que nos devolve a coragem de encará-la. E enquanto houver quem cante — seja na beira do tanque, seja sob as luzes de um altar de metal e som —, haverá sempre uma fresta de luz para que a barbárie não nos engula por inteiro.

​Emylson Farias
Delegado de Polícia

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REDAÇÃO

Autor da publicação.