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Última semana: a força das ruas, a Escala 6×1, a juventude, 10 pesquisas em 7 dias e a aposta de Lula nos 33 milhões que não votaram no 1ª turno

Com milhões de brasileiros ausentes das urnas no primeiro turno, o presidente Lula enxerga na juventude, nas manifestações populares e na conquista de dois dias de descanso semanal uma oportunidade de reverter a vantagem de Flávio Bolsonaro. As próximas pesquisas serão decisivas para medir se a reação das ruas está chegando ao eleitorado.

A eleição presidencial brasileira entrou em uma fase na qual os números das pesquisas já não conseguem, sozinhos, traduzir a intensidade da disputa política. O que se observa nas ruas, de Norte a Sul do país, é uma mobilização que devolveu entusiasmo à campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e colocou a juventude no centro de uma estratégia de recuperação eleitoral.

As manifestações populares, com expressiva participação de estudantes, trabalhadores e movimentos sociais, alimentam a expectativa de que Lula possa transformar o engajamento político em votos no segundo turno, marcado para 25 de outubro.

Não se trata apenas de convencer eleitores que votaram em outros candidatos. O desafio é ainda maior: conquistar uma parcela dos brasileiros que sequer compareceram às urnas no primeiro turno.

Segundo dados divulgados pela Justiça Eleitoral, mais de 33 milhões de eleitores deixaram de votar em 4 de outubro. É um contingente extraordinário, capaz de alterar profundamente uma eleição disputada voto a voto.

Nesse universo estão jovens de 16 a 24 anos, segmento que ganha importância especial porque reúne eleitores que começam a construir sua identidade política, enfrentam dificuldades para ingressar no mercado de trabalho e convivem diretamente com os efeitos das jornadas exaustivas. O dado mais revelador é que a abstenção entre eleitores de 21 a 24 anos alcançou 25,78% no primeiro turno, segundo levantamento do TSE divulgado pela Folha de S.Paulo neste sábado.
É justamente nesse eleitorado que Lula identifica uma oportunidade política: transformar a energia das manifestações em comparecimento efetivo às urnas.

A primeira evidência concreta da reação jovem

A aposta na juventude já encontrou respaldo em uma pesquisa nacional.

O levantamento BTG/Nexus, divulgado em 13 de outubro, mostrou que Lula passou de 49% para 57% das intenções de voto entre brasileiros de 16 a 24 anos, um crescimento de oito pontos percentuais em comparação com a sondagem anterior.

A evolução superou a margem de erro de seis pontos estimada para esse segmento e ocorreu justamente durante o período de mobilizações estudantis em favor do presidente.

É um movimento relevante, embora não permita afirmar que as manifestações, isoladamente, tenham provocado o crescimento.

O dado indica que a juventude pode se tornar um dos principais diferenciais da reta final. Para a campanha petista, porém, simpatia não basta. É necessário que o eleitor jovem saia de casa, compareça à seção eleitoral e deposite seu voto.

O fim da escala 6×1 pode ser o grande divisor de águas

Se as manifestações deram visibilidade à reação de Lula, a aprovação no Senado da proposta que acaba com a escala de trabalho 6×1 ofereceu ao presidente uma bandeira concreta, diretamente associada ao cotidiano de milhões de brasileiros.

A defesa de dois dias de descanso semanal ultrapassa fronteiras partidárias. Ela alcança trabalhadores do comércio, supermercados, farmácias, restaurantes, serviços e outros setores nos quais a jornada de seis dias de trabalho para apenas um de folga é uma realidade.

Para a juventude, especialmente aquela que acumula emprego, estudo e responsabilidades familiares, o tema pode representar muito mais que uma disputa ideológica. Trata-se de tempo para estudar, conviver com a família, descansar e construir um projeto de vida.

A conquista legislativa também oferece a Lula uma oportunidade de deslocar parte do debate eleitoral para a discussão sobre direitos sociais e qualidade de vida.

Mas é importante distinguir o impacto político da medida de sua implementação: o avanço no Senado não significa, por si só, que todos os trabalhadores já estejam usufruindo de uma nova jornada.

O que está em disputa neste momento é também a percepção do eleitor sobre quem defende seus interesses.

A escala 6×1 pode fazer o que milhões de peças publicitárias não conseguem: aproximar a eleição da realidade concreta de quem trabalha.

Especialistas identificam reação, mas alertam: a virada ainda não está garantida

A interpretação de analistas políticos reforça a importância desse momento.

Em análise publicada pela CNN Brasil na sexta-feira (16), Cristiano Noronha, vice-presidente da consultoria Arko Advice, avaliou que a mobilização popular e o avanço de propostas sociais contribuíram para reduzir a distância entre Lula e Flávio Bolsonaro.

O especialista também apontou um elemento central: Lula vem conquistando apoio entre pessoas que votaram em branco, anularam o voto ou não compareceram no primeiro turno.

Entretanto, Noronha fez uma ressalva decisiva. Historicamente, a abstenção tende a aumentar do primeiro para o segundo turno. Portanto, declarar intenção de voto não significa necessariamente comparecer às urnas.

Outro dado fortalece a hipótese de recuperação do presidente.

Na pesquisa Quaest divulgada em 14 de outubro, entre os entrevistados que não votaram ou escolheram branco ou nulo no primeiro turno, 43% declararam intenção de votar em Lula no segundo turno, contra 38% em Flávio Bolsonaro.

O resultado sugere uma vantagem petista nesse grupo, embora ainda não seja possível determinar quantos efetivamente votarão.

A leitura dos especialistas converge em um ponto: a disputa está mais apertada do que indicavam os primeiros levantamentos após o primeiro turno, mas Flávio Bolsonaro continua competitivo e mantém uma base eleitoral expressiva.

A semana das pesquisas pode confirmar ou frustrar a expectativa de virada

QUAEST · 14/10

46% × 44%

Flávio Bolsonaro × Lula

Empate técnico

DATAFOLHA · 15/10

47% × 45%

Flávio Bolsonaro × Lula

Empate técnico

O calendário eleitoral reserva uma sequência de pesquisas que poderá esclarecer se a reação observada nas ruas está se consolidando.

Segundo a revista Veja, estão previstas dez divulgações entre 17 e 21 de outubro. Na segunda-feira (19), devem sair levantamentos do PoderData, AtlasIntel e BTG/Nexus. Na terça-feira (20), Veritá e Real Time Big Data. Na quarta-feira (21), Quaest, Palver e Gerp.

Essas pesquisas terão uma importância particular porque poderão captar, conforme as datas das entrevistas, os efeitos mais recentes das mobilizações populares, da discussão sobre o fim da escala 6×1 e dos acontecimentos da campanha.

Uma nova redução consistente da vantagem de Flávio, especialmente se acompanhada por crescimento de Lula em diferentes institutos, fortalecerá a interpretação de que existe uma tendência de recuperação.

Se Lula aparecer numericamente à frente, será um acontecimento político de grande repercussão, mas ainda exigirá análise das margens de erro e da evolução das séries históricas.

Afinal, uma virada estatística não é necessariamente uma vitória eleitoral consolidada.

O que as multidões ainda precisam demonstrar

Existe uma diferença fundamental entre ocupar avenidas e conquistar a maioria do eleitorado.

Manifestações expressivas revelam capacidade de mobilização, entusiasmo e organização. Entretanto, seus participantes não representam automaticamente o conjunto dos brasileiros.

O eleitorado de Flávio Bolsonaro também apresenta elevada fidelidade, e o candidato conta com a vantagem numérica registrada nas pesquisas mais recentes.

É justamente por isso que a estratégia de Lula não pode ser interpretada apenas como uma disputa pelo tamanho dos atos públicos.

O presidente aposta na possibilidade de que a mobilização social alcance pessoas que estavam afastadas da política e que agora enxergam motivos concretos para participar da decisão presidencial.

O movimento será eleitoralmente relevante se conseguir ultrapassar o universo dos militantes tradicionais e alcançar trabalhadores, famílias e jovens que não participaram do primeiro turno.

A eleição pode ser decidida por quem ficou em casa

O grande paradoxo da eleição de 2026 é que milhões de brasileiros não participaram da primeira decisão, mas continuam habilitados a votar no segundo turno, desde que estejam com a situação eleitoral regular.

Em uma disputa na qual Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com vantagem inferior a dois pontos percentuais sobre Lula, qualquer mudança significativa no comparecimento pode influenciar o resultado.

A juventude aparece, portanto, como uma variável relevante, mas não exclusiva. A mobilização de trabalhadores, mulheres, idosos e eleitores que rejeitaram ambos os candidatos também pode ser determinante.

O Brasil chega à última semana da campanha diante de uma pergunta que os institutos de pesquisa tentarão responder: a recuperação de Lula representa apenas uma oscilação dentro de uma disputa equilibrada ou o início de uma mudança consistente na preferência do eleitorado?

As ruas sugerem que a campanha presidencial ganhou uma nova intensidade. Os levantamentos apontam que a distância diminuiu. E a pauta trabalhista introduziu um elemento social com potencial de repercussão eleitoral.

Ainda não há elementos suficientes para decretar uma virada.

Mas há evidências para afirmar que Lula chega à reta final em melhores condições competitivas do que aquelas observadas imediatamente após o primeiro turno.

O verdadeiro teste não será apenas saber quantos brasileiros saíram às ruas em outubro, mas quantos transformarão sua participação política em votos no dia 25.

É nas urnas, e não no tamanho das multidões, que a expectativa de virada poderá se transformar em realidade.

Editorial — O Seringal

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REDAÇÃO

Autor da publicação.

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