Há semanas que parecem colocar à prova nossa capacidade de acreditar no ser humano. A que passou foi uma delas. O assassinato cruel da médica Elyne Nogueira, em Brasiléia, mergulhou o Acre em indignação, tristeza e perplexidade. A brutalidade do crime, os detalhes revelados pela investigação e a sensação de impotência diante de uma vida interrompida de forma tão covarde deixaram feridas que não se fecham com o passar dos dias.
Mas, em meio à escuridão, a arte abriu uma fresta de luz.
É justamente nesse encontro de extremos — a barbárie que destrói e a beleza que reconstrói — que Emylson Farias encontra a inspiração para sua crônica desta semana, “A arte que nos salva de nós mesmos”.
Com a sensibilidade de quem conhece de perto a face mais cruel da violência, mas se recusa a perder a ternura, o delegado revisita a própria infância. Recorda a mãe cantando Roberto Carlos enquanto enfrentava a dureza do trabalho doméstico, entre roupas, espuma e varais. Só muitos anos depois compreenderia que aquela música não era apenas companhia: era uma forma silenciosa de resistência às asperezas da vida. E, diante do espetáculo do Rei em Rio Branco, a memória voltou, e com ela, a certeza de que a humanidade, mesmo tão capaz de produzir horror, ainda guarda dentro de si a extraordinária capacidade de produzir beleza.
Emylson não propõe esquecer Elyne. Muito menos transformar a música em anestesia para a indignação. Ao contrário: lembra que a arte pode nos devolver a força necessária para enfrentar a realidade sem permitir que a brutalidade nos roube a própria humanidade.
O cronista nos convida a refletir sobre o mundo que estamos construindo — e aquele que ainda podemos escolher.
É uma reflexão comovente sobre memória, dor, esperança e a necessidade urgente de preservar aquilo que nos torna humanos.
Leia, a seguir, um texto para ser sentido antes mesmo de ser compreendido. Porque, quando a violência parece vencer, talvez seja a arte que nos ensine a continuar acreditando na vida.

