Há manifestações de intolerância que ultrapassam os limites da insensatez. Há declarações que revelam não apenas a ausência de bom senso, mas um preocupante desprezo pela vida humana, pela própria história e pela terra que acolheu quem as profere. O servidor público estadual Haroldo Viga parece determinado a ultrapassar todos esses limites.
Pela segunda vez em menos de sete dias, o funcionário do governo do Acre (fiscal do Idaf e bolsonarismo radical), protagoniza um episódio lamentável nas redes sociais. E, desta vez, foi ainda mais longe: sugeriu que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, começasse pelo Acre um hipotético bombardeio ao território brasileiro.
“Faça isso Trump. Comece pelo Acre. Não deixe pedra sob (sic) pedra”, escreveu Viga, em resposta a uma publicação sobre apoiadores do presidenciável Flávio Bolsonaro que exibiram um míssil inflável, numa manifestação que sugeria um ataque americano ao Brasil.
É difícil imaginar declaração mais incompatível com o respeito que se espera de alguém que há quatro décadas exerce função pública justamente no estado que agora aparece como alvo de sua manifestação.
Haroldo Viga não está falando de um território desconhecido. Está falando do Acre, sua terra natal, onde constituiu família, construiu sua trajetória profissional, criou vínculos e encontrou no serviço público a oportunidade de garantir sua subsistência e conquistar estabilidade.
O que se passa na mente de um ser tão desprezível?
É esta mesma terra que ele, num acesso de radicalismo político, sugere que seja reduzida a escombros por bombas e mísseis estrangeiros.
Acredita ele que o governo, a governadora dos acreanos, apoiariam tal desaforo, muito embora seja aliada do mesmo presidenciável?
DA OFENSA AOS POBRES À SUGESTÃO DE BOMBARDEIO
Na semana passada, Haroldo Viga já havia provocado indignação ao classificar beneficiários do Bolsa Família como vagabundos que receberiam dinheiro público sem fazer nada.
A generalização atingiu famílias em situação de vulnerabilidade, inclusive milhares de mães acreanas que dependem do benefício federal para alimentar seus filhos, comprar medicamentos e assegurar condições mínimas de sobrevivência.
A repercussão foi imediata. A declaração chegou, inclusive, ao conhecimento do gabinete da governadora Mailza Assis, chefe do Executivo ao qual Viga está funcionalmente vinculado.
Ao perceber a dimensão do desgaste, o servidor procurou o jornalista Assem Neto, responsável pela reportagem publicada em O Seringal, e solicitou direito de resposta.
O pedido foi prontamente atendido. Porém, ao invés da gratidão, Haroldo respondeu com mais ódio: baniu o jornalista dos grupos nos quais ele, Haroldo, é administrador.
Na mao publicada pelo portal, Viga reconheceu que havia generalizado e classificou seu próprio comentário como infeliz. Parecia, naquele momento, que o episódio serviria de aprendizado sobre os limites entre opinião política, preconceito social e respeito à dignidade humana.
Mas a aparente reflexão durou menos de uma semana.
Neste domingo (18), o mesmo servidor voltou às redes sociais, desta vez para sugerir um ataque militar estrangeiro ao estado onde vivem seus familiares, amigos, colegas de trabalho e milhares de cidadãos que, direta ou indiretamente, ajudam a sustentar a estrutura pública da qual ele faz parte.
Não se trata de uma simples divergência ideológica. Defender determinado candidato, criticar o governo federal ou manifestar simpatia pelo presidente americano são direitos assegurados pela democracia.
Outra coisa, absolutamente distinta, é transformar o inconformismo político em manifestações que celebram ou incentivam a destruição do próprio país.
QUARENTA ANOS DE SERVIÇO PÚBLICO NÃO ENSINARAM O RESPEITO?
O caso ganha contornos ainda mais graves quando se considera a trajetória funcional de Haroldo Viga.
São aproximadamente quatro décadas de exercício no serviço público acreano, segundo as informações sobre sua carreira.
Tempo suficiente para compreender que o Estado não pertence a uma corrente ideológica, a um partido ou a um grupo político. O Estado existe para servir à população, independentemente de suas preferências eleitorais.
É legítimo questionar, portanto, como alguém com tamanha experiência na administração pública ainda consegue demonstrar tamanho desprezo, em suas manifestações pessoais, pelos próprios conterrâneos.
Que espécie de patriotismo é esse que invoca uma potência estrangeira para bombardear o território nacional?
Que amor pelo Acre é esse que deseja, ainda que em uma manifestação retórica, não deixar pedra sobre pedra?
E que exemplo de convivência democrática oferece um servidor público que, em menos de uma semana, primeiro hostiliza pessoas pobres e depois sugere a destruição da terra onde nasceu?
O extremismo político não pode servir de salvo-conduto para a irresponsabilidade. Muito menos o patriotismo pode ser invocado como disfarce para manifestações de hostilidade contra o próprio povo.
O SILÊNCIO TAMBÉM MERECE REFLEXÃO
A governadora Mailza Assis não pode ser responsabilizada automaticamente por manifestações pessoais de um servidor. Seria injusto atribuir à chefe do Executivo as opiniões individuais de quem integra a estrutura administrativa estadual.
Mas é perfeitamente legítimo cobrar que a administração pública examine, dentro dos limites legais, se manifestações dessa natureza são compatíveis com os deveres funcionais e éticos exigidos de seus agentes.
O Acre não precisa de censura, perseguição ideológica ou punições arbitrárias. Precisa de respeito, responsabilidade e civilidade.
E não venham tratar isso como “liberdade de expressão”.
Não é. Nunca foi !!
Cabe aos órgãos competentes avaliar os fatos, sem prejulgamento e com observância do devido processo legal.
O SERINGAL NÃO SERÁ PALCO DE RETRATAÇÕES SEM FIM
Na primeira oportunidade, esta Editoria de Política concedeu a Haroldo Viga espaço para apresentar sua versão, esclarecer suas palavras e reconhecer o erro.
O gesto não representou favor pessoal, mas respeito ao contraditório e aos princípios do jornalismo profissional.
Entretanto, diante da reincidência em manifestações públicas dessa natureza, O Seringal não transformará suas páginas em palco de um ciclo interminável de provocações, repercussões e arrependimentos.
Não haverá concessão voluntária de novos espaços para justificativas destinadas apenas a amenizar o desgaste provocado por declarações sucessivas, sem prejuízo dos direitos de resposta e retificação assegurados pela legislação brasileira.
O jornalismo tem o dever de informar, investigar, criticar e fiscalizar. Não tem a obrigação de normalizar manifestações de intolerância nem de tratar como simples brincadeira uma declaração que sugere bombardear o Acre.
Haroldo Viga tem o direito de pensar politicamente como quiser. Tem o direito de apoiar Flávio Bolsonaro, admirar Donald Trump e discordar de quem governa o Brasil.
Mas também precisa compreender que suas palavras têm consequências e que o exercício da liberdade de expressão não o coloca acima da crítica.
O radicalismo pode até explicar o destempero. Jamais justificá-lo.

